sábado, março 25, 2006

"Continuo treinando e jogando com a mesma disposição do início"

Daniel Mameri é sem dúvida um craque, está com o nome eternizado na elite do Pólo Aquático brasileiro. Não digo isso nem pelo pouco que o vi jogando quando eu já estava parando (ou desistindo), mas pelo que já ouvi e li a respeito do seu aproveitamento na piscina.

Há quem tente caracterizá-lo mais pelo seu temperamento forte do que pelo seu talento. A verdade é que quando enviei as perguntas, esqueci de falar sobre isso, sobre essa reputação, os problemas com juizes...Pela forma cordial e direta com que me mandou as respostas, tenho certeza que respoderia sem problema. Preferi não mandar e acredito ter acertado. Mais do que alimentar o mito, queria mais uma vez colocar Pólo Aquático em discussão, no que tenho certeza que o objetivo foi totalmente atendido. Com o vigor de quem sabe do que está falando.

Pólo Ceará - Você é apontado como um dos melhores jogadores brasileiros de todos os tempos. O Duda também está nessa lista e disse aqui no blog que depois de 30 anos de dedicação não sente falta do Pólo Aquático por tudo de errado que viu e viveu. Depois de tanto tempo na ativa, você ainda mantém a mesma vontade de treinar e jogar de antigamente?

Daniel - Gostaria antes de tudo de agradecer a oportunidade de estar aqui e parabenizar a todas as pessoas que colaboram para a divulgação do Polo Aquático no Brasil.

Eu jogo desde os 12 anos de idade e em maio estarei completando 22 anos de polo aquático, continuo treinando e jogando como a mesma disposição do início, o polo é como terapia, depois de horas de trabalho estressante é muito bom cair na água e esquecer da pauleira do dia a dia.

Pólo Ceará - Como você avalia a participação do Brasil no sul-americano?

Daniel - O Brasil jogou muito bem o Sul-americano, não dando a menor chance pra nenhum adversário, tanto no masculino quanto no feminino, mostrando a supremacia na Sulamerica.


Pólo Ceará – Segundo o Kiko Perrone, você teria vaga em qualquer time europeu no meio dos anos 90, o que não é nada fácil. Valeu a pena ter ficado por aqui?

Daniel - Eu tive vários convites para jogar fora, (Itália, Espanha, USA e Austrália)a decisão não era por jogar no Brasil ou fora e sim largar meu emprego e ir jogar polo ou continuar jogando aqui e manter o meu emprego.

Eu decidi por ficar e continuar trabalhando e não me arrependo disso, lógico que gostaria muito de ter jogado fora,mas infelizmente na época não deu pra conciliar.

Pólo Ceará - Como você está vendo a participação dos dois irmãos Perrone e de outros (as) brasileiros (as) lá fora?

Daniel - Fico muito feliz em ver só noticias boas dos Perrones na Espanha, Vicente na Itália e as meninas que estão jogando fora também, isso abre portas para outros Brasileiros que decidirem jogar fora e confirma o talento do jogador Brasileiro já provado anteriormente com Eric, Carsalade, Chappini, Ale Araújo e outros.

Pólo Ceará - Tudo bem que se jogue por prazer, mas reconhecimento pelo esforço é algo digno e que deve ser valorizado. Imagino que você tenha dedicado muitas horas da sua vida para ter chegado ao nível que chegou e para ser um dos melhores há tantos anos. De que forma esse esforço todo foi reconhecido?

Daniel - Pela CBDA e pelo COB nunca foi reconhecido e nunca será e também não espero que um dia seja porque sempre falei o que penso e isso às vezes não agrada a todos. Mas por outro lado esses anos de dedicação e treino me trouxeram grandes amigos e essa recompensa não tem preço

Pólo Ceará - Você concorda com a opinião de alguns de que exista um certo pacto de mediocridade, onde os atletas não treinam mais em seus clubes e as entidades responsáveis não apóiem por achar que os atletas não mereçam? Onde está o "ovo da serpente"? Qual seria o primeiro passo para levantar o Pólo Aquático nacional?

Daniel - Não concordo, o jogador Brasileiro já provou mais de uma vez que tem total condição de jogar em qualquer time do mundo e mesmo assim nunca foi dada a condição ideal para treinamento, são poucos clubes que oferecem isso hoje em dia.

Acho que a massificação do esporte e a profissionalização são os caminhos a serem tomados para um rápido desenvolvimento do esporte no País e depois uma federação só de polo vinculada a CBDA.

Pólo Ceará – Vamos aos temas mais leves. Destaque sua maior alegria como jogador.

Daniel - A minha maior alegria como jogador com certeza foi a medalha de prata em Mar Del Prata 95. Perdemos na final, mas aquela prata teve sabor de ouro.

Pólo Ceará – Quais os melhores jogadores com quem você já jogou, contra e a favor?

Daniel -Já joguei contra todos os melhores do mundo (Estiarte, Bárbaro Dias, Ivan Peres, Sapic, Vuja, irmãos Calcaterra, Benedeck, e muitos outros que eu não lembro agora) e tive o prazer de jogar ao lado de Eric Borges, Fernando Carsalade, Roberto Chappini, Kiko e Felipe Perrone, Pará e tantos outros bons jogadores.


Pólo Ceará – O que você acha das novas gerações de atletas que estão surgindo? Você já vê algum destaque?

Daniel - Eu não vejo novas gerações de atletas surgindo no Brasil e sim alguns jogadores de gerações diferentes que estão acima da média.

Pólo Ceará - Você, assim como outros atletas, se prontificou a vir ajudar no que fosse possível para levantar o Pólo Aquático no nordeste. Claro que num primeiro momento nossa meta aqui em Fortaleza é incutir na cultura local, criar o hábito de treinar e jogar por prazer puro, pra depois pensar em formar times competitivos. Você acha que a regionalização (como já se faz no sul, por exemplo) possa ser um caminho para a expansão do esporte?

Daniel - Como já falei antes, tenho certeza que esse é um dos principais pontos a serem explorados para o desenvolvimento do esporte e para o surgimento de novos talentos fora do eixo Rio São Paulo.

Pólo Ceará - Pra terminar: como estão os preparativos para o Pan?

Daniel - Nós começamos os treinos pro Pan 07 em janeiro deste ano, um pouco tarde pra quem quer ganhar uma medalha de ouro.Mas mesmo assim nós acreditamos muito na superação das dificuldades e por ser no Rio contamos com a força da torcida então as expectativas são as melhores possíveis, vamos para brigar pelo ouro tão sonhado e a vaga para a olimpíada.

Fotos: Sátiro Sodré (www.cbda.org.br)

1 Comments:

Anonymous Satoshi said...

A nossa cultura esportiva "fora futebol" faz realmente com que pensemos duas vezes antes de largar tudo para viver como profissional do esporte! Uma decisão difícil de ser tomada! Potencial alguns tem! Porém, precisam pensar no "depois"... Ele foi um dos que optou por ficar. Mas será que não rola um "e se eu tivesse ido? Como estaria hj?"!?!? Complicado!

Boa sorte à seleção no Pan!
Valeu pela entrevista!

26 março, 2006  

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