domingo, dezembro 25, 2005

"Ninguém pode forçar um atleta a ganhar se ele não quiser"

Joyce Brandão adora praia. Passar oito anos longe do mar não deve ter sido fácil. Se ficou distante da brisa da Praia do Futuro e da água salgada, do cheiro de cloro das piscinas ela jamais saiu de perto. Foi graças à natação que teve a oportunidade de estudar na Campbellsville University, nos Estados Unidos, se graduando em Psicologia e depois fazendo mestrado em Psicologia Industrial. A menina que começou a nadar aos três anos colecionou títulos nas piscinas, sendo campeã brasileira nos 200 medley e sexta melhor do mundo nos 100 borboleta. Depois de tantas vitórias, Joyce agora volta para Fortaleza e, sem medo, recomeça sua vida mais uma vez. Entre os novos desafios ela resolveu ser uma das maiores incentivadoras do Pólo Aquático feminino em Fortaleza. A gente agradece.

Pólo Ceará - Você nadou pelo Náutico em Fortaleza, pelo Flamengo no Rio e nos Estados Unidos. Dá para fazer um comparativo das condições de treino nesses três centros?

Joyce - No Náutico eu tinha um bom técnico, o Ricardo Ribeiro, uma equipe unida e tinha o apoio dos pais, mas era difícil ter um apoio da escola e de patrocinadores. Isso dificultava ter objetivos de nível profissional. No Flamengo foi onde mais aprendi e tive o melhor preparo físico e psicológico. Tinha um técnico excelente, o Maviael Sampaio, massagista, nutricionista, personal trainner, e os atletas moravam juntos, ou seja, tínhamos todo o apoio necessário para sermos campeões, só restava a nós treinar. Já nos EUA tínhamos uma equipe desunida pelo fato de todos serem estrangeiros. Era cada um por si, o técnico também não era satisfatório, mas tínhamos apoio da Universidade e tudo pago, desde a alimentação até as viagens. O fato também de estar longe de casa, de ter que estudar em outro idioma dificulta a concentração nos treinos. Os grandes nadadores brasileiros treinam em Coral Springs na Florida, juntos e com técnicos brasileiros e americanos, mas a maioria deles como Joana Maranhão, Kaio Marcio, foram "feitos" no Brasil. Analisando minha carreira, o que mais faz um atleta é um técnico, que motiva, treina, orienta e cuida de seus atletas como um filho.

Pólo Ceará - De que forma essas diferenças afetam o lado psicológico dos atletas?

Joyce - Afeta 100%! Nós treinamos para competir, certo? No treino usamos 90% de físico e 10% de psicológico, na competição usamos 90% psicológico e 10% físico. Quem treinou está preparado para dar o melhor do seu físico e só resta estar calmo e confiante para não "amarelar". Quem não treinou sabe que o físico não está bem e isso conseqüentemente atrapalha o psicológico. Morando no exterior, a pressão fica maior por parte da família, faculdade e do técnico que está te pagando pra ganhar, então resta a nós atletas treinar, treinar, treinar e não ter saudades de casa, da comida da mamãe ou da prainha aos domingos. Já morando no Brasil, temos mais apoio dos pais e dos técnicos, que são mais "calorosos" em relação aos sentimentos de cada atleta, sabem que temos a capacidade, mas não nos pressionam como os norte-americanos, cujo interesse está em quanto eles irão ganhar em cima de você, independente se você tem sentimento ou não. Isso mexe psicologicamente com o atleta que já se vê sozinho em um país estranho e que com certeza teria que ter mais apoio emocional.

Pólo Ceará - Você se graduou em Psicologia e fez mestrado em Psicologia Industrial. De que maneira você aplica esses conhecimentos para a Psicologia Esportiva? A produtividade seria o ponto em comum entre essas áreas?

Joyce - Psicologia Industrial e Esportiva andam de mãos dadas, porque vejo cada empresário/ empregado como um atleta, um maratonista, um jogador querendo vencer na vida, levar a sua empresa a ser a número 1, assim como um atleta quer ver seu clube no lugar mais alto do podium. Trabalho com liderança, motivação e satisfação de empregados. Também trabalhei isso em atletas, a serem os melhores nas suas especialidades. Trabalhei um ano com Psicologia Esportiva e muitas das técnicas que usei com nadadores uso com minhas equipes de trabalho. Sim, o atleta já é o produto que o clube "vende" à mídia. E como Psicóloga Esportiva meu dever era treinar, desenvolver e motivar esse produto para o sucesso da empresa (clube).


Pólo Ceará - Você trabalha com motivação e faz palestras sobre o tema. Você acha que o que Nelson Rodrigues chamou de complexo de vira-lata referindo-se a um sentimento de inferioridade dos brasileiros, entre os nordestinos, de uma forma geral, seria mais acentuado?

Joyce - Na minha opinião, eu acredito que Nelson Rodrigues, com todo respeito, estava se referindo a ele e a vida que teve. Uma criança que precisava se destacar entre os 13 irmãos, que não gostava de sua imagem e por ser repudiado por professoras, namoradinhas e pela sociedade. Acredito que ele se baseou na sua vida e seus contos a partir de seu passado, bem diferente da realidade de hoje em dia, afinal não tomamos mais banho em bacias. Mas concordo que os Nordestinos continuam a ser discriminados (o que poderia deixá-los com complexo de inferioridade), não somente nos esportes, mas em qualquer área profissional. Todos nós sabemos disso. Mas quero lembrar que por sermos (sou cearense nata), discriminados, somos mais fortes e temos uma personalidade excêntrica. Venci essa discriminação nos campeonatos Brasileiros porque eu tinha orgulho de ser Nordestina e queria mostrar a todos que o N/Ne estava presente. A Joanna Maranhão é a melhor nadadora que o Brasil já teve e ela é pernambucana, o Kaio Márcio acabou de bater o recorde Mundial nos 50 e 200 metros Borboleta, um paraibano de 18 anos. Um campeão nato não está preocupado em inferioridade nem fica preso a seu passado, ele está interessado em ganhar, em glória, e a motivação vem de dentro, ninguém pode forçar um atleta a ganhar se ele não quiser. Essa é grande diferença entre um atleta de ponta e um que ganha um campeonato estadual: seus valores e a determinação. Depois de 5 anos sem competir e 4 sem treinar, ontem fiquei em 2° lugar no campeonato Aberto, onde competi os 400 Medley na experiência, mas isso não me deixou inferior, pois sei dos meus valores. Você se acha inferior? Acho que isso é coisa que colocam em nossa mente (risos)!

Pólo Ceará - Como isso pode ser revertido?

Joyce - Consciência e valorização. Consciência de quem somos e o que podemos ser. Valorizar nossas metas e acreditar que se quisermos podemos ser melhor no esporte, trabalho ou estudo que amamos.

Pólo Ceará - Como você vê essa moda da auto-ajuda vigente há alguns anos?

Joyce - Interessante. Assim como existem pessoas que tem uma facilidade de aprender sozinhas, também existem aquelas que têm mais facilidade na auto-ajuda. Mas na realidade são pessoas com dúvidas ou balanceadas que querem melhorar sua personalidade e atitudes. È muito difícil para um indivíduo que está com problemas, frustrações ou transtornos, como depressão, se auto-ajudar. Assim como uma criança, que não tem muita lógica, essa pessoa precisa de orientação, confidência e às vezes até medicamento. Livros de auto-ajuda são importantes para aqueles que querem encontrar caminhos para a satisfação total, mas não são compreensíveis para aqueles que precisam de ajuda em algum trauma, obsessão, depressão, pânico ou ansiedade.

Pólo Ceará - Depois de muitos anos na natação, você agora está treinando Pólo Aquático, um esporte que está engatinhando em Fortaleza. O que é preciso para manter esse pessoal motivado?

Joyce - O Pólo é um esporte coletivo, o time precisa estar unido. As meninas são capacitadas, alegres e competentes. Neste início para manter a motivação é preciso compromisso acima de tudo. Para que o time desenvolva é necessário que o time compareça aos treinos e treine com garra. Garanto que se houver esse compromisso então poderemos ter objetivos mais altos como um N/Ne ou Brasileiro.

Pólo Ceará - O brasileiro é menos disciplinado para treinar do que atletas de outros países? A que se deve isso, seria um traço cultural ou uma resposta à falta de apoio?

Joyce - Um traço cultural sem dúvida. O maior exemplo é a iniciativa do Pólo, estamos sem apoio, mas temos a vontade e interesse e estamos crescendo. Como falei, a motivação vem da nossa mente, do desejo de vencer, de mostrar o que somos e podemos fazer. Volto ao tema dos técnicos que precisam também ter uma conscientização. O atleta não ganhará apenas com treino. No Brasil, os técnicos não têm interesse em estudar psicologia e nutrição. Também não sabem lidar com os pais dos atletas que às vezes pressionam muito o filho, e por aí vai. O Brasil tem melhorado muito ultimamente, as faculdades oferecem bolsa de estudos aos atletas e empresas estão investindo, mas como diz o Bush: “os brasileiros só quem saber de festa”. Não vejo nada de errado com isso, mas sabemos que como atleta profissional temos que abdicar de muitas festas e euforias. Creio que a disciplina tem a ver mais com idade e fase. É mais fácil disciplinar um jogador brasileiro de 30 anos que não tem tanto interesse em festas e viagens do que um jogador brasileiro em plena adolescência, em busca do “quem sou eu”.

Pólo Ceará - Você acredita que essa volta do Pólo Aquático, do Nado Sincronizado e dos Saltos Ornamentais às piscinas de Fortaleza seja resultado de um trabalho de base nos esportes aquáticos ou são movimentos independentes isolados?

Joyce - Acabei de voltar ao Brasil e não estou muito informada sobre o que está acontecendo. Conheço a Jamille, técnica do nado, que começou essa trajetória devido ao apoio da Jeanne Brandão. Nós, do Pólo, estamos sendo motivados por ex-jogadores, então acho que já respondi a sua resposta, seria necessário o apoio da FCDA, que seria nossa ponte com a CBDA. Creio que temos muito que oferecer.

Pólo Ceará - Você que está puxando o movimento do Pólo Aquático Feminino. Quantas meninas estão praticando? Vocês estão gostando? Dá para outras meninas entrarem ainda?

Joyce - Somos 8 no momento. Praticamos antes do treino masculino e está sendo muito bom. Muitas meninas são ex-nadadoras cansadas de contar azulejos, mas que sentem muita falta das piscinas e competições. O pólo é inovador, restaurador e que nos traz uma sensação de competitividade e ao mesmo tempo de entrar em forma. Sim, todas são bem vindas, 2006 será um ano de grandes realizações para nosso time e grandes amizades também! Grande abraço!

6 Comments:

Anonymous Satoshi said...

Muito boa a entrevista!!
Parabéns à nossa campeã!!!
E que o pólo feminino decole neste ano que entra!! Se depender de nosso incentivo, essas mulheres vão longe!!!

25 dezembro, 2005  
Anonymous marcusboulitreau@ig.com.br said...

que bom saber , que já existem 8 meninas treinando pólo aquático em fortaleza !!! espero que na 1º etapa do circuito nordestino na semana santa , já participem com a equipe feminina também !!! boa sorte e bons treinos meninas !! pernambuco torce e parabeniza pelo esforço de vocês !!

25 dezembro, 2005  
Anonymous Anônimo said...

Muito consciente. O primeiro passo pro Pólo aquático feminino está bem dado.

Parabéns e sigam em frente.

26 dezembro, 2005  
Anonymous Aline said...

...mulherada do polo!!! parabéns, adorei a entrevista...muito 10!!!

26 dezembro, 2005  
Anonymous Dirceu said...

Muito boa a entrevista!
É muito bom saber que temos atletas de verdade e com maturidade entre nós.
O desafio de levantar o polo aqui em Fortaleza é grande, principalmente pelo fato de termos apenas um time no estado. Entretanto, basta olhar para o "nosso" blog, criado e alimentado pelo Hélcio e com entrevistas tão enriquecedoras, para perceber que estamos indo no caminho certo.
Parabéns ao Hélcio e à Joyce pela brilhante entrevista. Vamos em frente!

27 dezembro, 2005  
Anonymous Rafael Anselmo said...

Hélcio, perfeito, muito boa a entrevista... estar de parabens e Joyce uma batalhadora....

Sabado, treino em 2006 nova fase hehehehe, colocarei minha garra pelo Polo!... estarei lá...


Garra!!!!

28 dezembro, 2005  

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