domingo, fevereiro 12, 2006

"O melhor do pólo aquático são a saúde e os amigos"

Duda foi meu técnico no infantil A. Acredito que nosso time foi o primeiro dirigido por ele em seus 20 anos como técnico. Para nós isso representava o mesmo que ter na época o Zico ou o Roberto Dinamite (sou vascaíno!) como técnico de uma escolinha de futebol. Não havia para nós dúvida alguma que Duda era o melhor jogador do mundo.

Desde essa época e por muitos anos vimos o cara fazer de tudo dentro da água. Fazia gols com três marcadores em cima dele e apenas a munheca do lado de fora, fazia gols fáceis, fazia gols que nos pareciam impossíveis.

O mais legal talvez nem fosse sua extrema habilidade com a bola amarela. Sobre a borda Duda deixava sempre frouxa a sua gargalhada e, mesmo quando tinha que dar esporro no time, dava o esporro sem nunca desrespeitar nem diminuir ninguém. O craque que "pegava" todas as gatas com quem apenas sonhávamos, tratava a todos, fosse quem fosse, com o mesmo carinho e atenção.

Enquanto você lê essa entrevista, Duda deve estar tranquilo surfando em Itaúna. Um dia a gente chega lá.

Pólo Ceará - Logo antes de começar a jogar me chamavam a atenção as notícias de jornal sobre as finais entre Botafogo e Gama Filho, no comecinho dos anos 80. Estou há 10 anos fora do Rio, mas até vir pra Fortaleza não lembro do Pólo Aquático ter tido tanta atenção da mídia especializada como nessas finais. Como eram aqueles jogos?

Duda - Na verdade acho que o pólo aquático tem estado mais na mídia que no meu tempo, pois tenho assistido ao vivo pela Sportv finais de campeonatos brasileiros e jogos da liga mundial. Nos jornais continuamos a ver algumas reportagens quando tem algum jogo internacional ou finais de campeonatos brasileiros, mas a nível de divulgação dos clubes realmente piorou.

Gama Filho e Botafogo eram dois timaços que formavam a base da seleção na época, dirigidos por dois grandes técnicos (Paulinho e Barriga). Existia muita rivalidade, mas também muito respeito entre os dois times e os jogos eram sempre com placares apertados e muita emoção até o final. A única partida que terminou em confusão foi numa final que aconteceu no Julio Delamare. Após um jogo dramático vencido por nós com um gol faltando 4 segundos, houve um desentendimento de um de nossos jogadores (Marcos
Vinicius) com o árbitro (Cabral) que chegou as vias de fato. Entre os jogadores não rolava esse clima, até porque treinávamos juntos na seleção uma boa parte do ano.

Pólo Ceará - Como é que você começou a jogar?

Duda - Eu fazia natação no Canto do Rio, em Niterói, quando o Paulinho, hoje consagrado técnico do Flamengo, começou sua carreira de técnico no Clube. Eu estava de saco cheio de contar ladrilhos e sempre que acabavam os treinos de natação, eu ficava assistindo o treino do pólo e ficou fácil concluir que aquele esporte era muito mais interessante.

Pólo Ceará - Você desenvolveu um estilo muito próprio de jogar e era quase "imarcável" no centro. Devo ter comemorado centenas de gols seus nas arquibancadas quando era moleque. Você se baseou em alguém? Como você definiria seu modo de jogar?

Duda - Quando comecei a jogar eu era muito franzino e fui passando por todas as posições antes de ir parar no centro. Comecei a jogar no adulto com 15 anos e precisei me desenvolver muito tecnicamente em todas as posições para compensar o fato de ser leve. Paralelamente eu era fominha de treino, chegava 1 hora antes e só saía da água quando o vigia do clube apagava os refletores. Ficava “inventando” passes, chutes e jogadas com os amigos depois dos treinos e alguns desses fundamentos acabaram sendo úteis em
algumas situações de jogo pois surpreendiam os adversários.

Os grandes centros internacionais na minha época eram caras enormes, muito fortes, que
jogavam exclusivamente na base da força. Como não era esse o meu caso, tive que dar meu jeito e acabei criando um estilo próprio.

Pólo Ceará - Como foi a experiência das Olimpíadas de Los Angeles e como você analisa o time e a campanha?

Duda - Participar de uma Olimpíada é a realização de qualquer um que já tenha praticado um esporte. Nosso time fazia parte do “terceiro grupo” no ranking mundial como, aliás, permanece até hoje, portanto fizemos um bom papel dentro das nossas limitações contra todas as grandes equipes, à exceção do último jogo contra o Japão que poderíamos ter ganho e, por nossas falhas acabamos perdendo. O time era na realidade um grupo de 13 jogadores (Ayrton e Vinicius foram cortados por divergências com os dirigentes e na época só jogavam 11) que eram realmente os melhores do Brasil.

Pólo Ceará - Existe algum jogo que te traga uma lembrança especial na sua carreira?

Duda - O jogo contra o Canadá na conquista da medalha de bronze no pan de 87 em
Indianápolis marcou bastante pela raça com que o time jogou. O último quarto foram os 5 minutos mais longos da minha vida.

Pólo Ceará - Pelos anos de vivência no Pólo Aquático, você considera que o Pólo Aquático brasileiro está evoluindo ou está estagnado?

Duda - A nível mundial acho não mudou muita coisa. Continuamos no “terceiro grupo” no adulto e no junior acho que demos até uma piorada em relação à geração do Chaia e do Luis Guilherme. A nível nacional acho que tem mais gente jogando, o que é excelente, mas é inegável que as dimensões continentais do nosso país dificultam o intercâmbio, que é fundamental para o desenvolvimento do esporte como um todo.

Pólo Ceará - Quem foram os melhores jogadores com quem você jogou, a favor e contra?

Duda - Como tive uma carreira longa como atleta, joguei com várias gerações de excelentes jogadores. Destaco alguns como Álvaro Sanches, Ricardinho, Ayrton, Vinicius, Sólon, Carlinhos, Eric Borges, Pará, Beto, Kiko Perrone e Daniel Mameri. Dos gringos destaco o italiano De Magistri, o espanhol Manoel Estiarte, o alemão Frank Oto, os americanos Schroeder e o goleiro Wilson.

Pólo Ceará - Como foi a experiência como treinador?

Duda - Ser técnico durante 20 anos foi uma experiência fantástica. Pude aprender e crescer com várias gerações, ensinando o que eu mais sabia fazer. Como sempre dirigi equipes de base até o junior, pude me dar ao luxo de não ter como único objetivo a performance, tratando cada atleta de uma forma individualizada visando sua formação como um todo, e não como uma peça de um jogo. Se nem todos foram campeões no esporte, são hoje grandes homens e, principalmente grandes amigos, e tenho por eles o mesmo carinho de quando eram moleques. Isso para mim foi a grande conquista como técnico. Os troféus
e medalhas estão guardados cheios de poeira.

Pólo Ceará - Você está desligado do Pólo Aquático há três anos, mas de vez em quando ainda bate uma bola com os masters. O "verme" do Pólo Aquático jamais tem cura? Como são esses encontros?

Duda - Viver 30 anos totalmente envolvido com um esporte e dizer que não sente
falta parece mentira, mas vi tanta sacanagem nesse tempo de atleta/técnico que confesso que perdi um pouco o encanto do esporte como performance. Tenho a consciência tranqüila por ter feito o que estava ao meu alcance para tentar melhorar o esporte. Criei a Divisão Especial com o apoio da FARJ num projeto que durou 3 anos e continua hoje com enorme sucesso promovido e muito bem organizado pelo site, com etapa em vários Estados, mas hoje em dia só acompanho pela internet para saber como estão os amigos e vejo (quando
passa) alguns jogos na tv.

Pólo aquático pra mim hoje é só fazer aquele coletivão bem descontraído com os velhos, dar um montão de risadas, ver aqueles respeitáveis senhores empresários, médicos e engenheiros se comportando como adolescentes e tomar um monte de cervejas depois. Concluindo, na minha opinião o melhor do pólo aquático são a saúde e os
amigos.

A foto foi "montada" na piscina do América logo após as Olímpíadas de 1984. O jogador que simula a marcação é outro ícone da geração olímpica: Silvio Manfredi. E falando em grandes craques, no domingo que vem tem ninguém menos do que o ex-cracaço e vitorioso Solon dos Santos.


1 Comments:

Anonymous Hélcio said...

só pra reforçar o lado pitoresco...

claro que conforme fomos crescendo, começamos a treinar com o adulto.

com uns 15 anos estava na defesa num coletivo e sem querer acertei a quina perfeita do cotovelo na cara do duda. pegou em cheio.

o cara ficou puto, mandei um tímido "foi mal". na jogada seguinte ele entrou com tudo, rolou aquela embolada e acertei outra pior, coisa que nunca acontecia comigo.

vi o cara transtornado, pulando na água feito um louco: "foi mal de novo hélcio?". nem falei nada, achei melhor ficar calado pq já era lucro.

o tempo passou e larguei a piscina pra encontrar a galera após os treinos pra cervejinha e o duda sempre, sempre foi a mesma figura que conheci quando tinha 11 anos.

acho isso importante de ser repetido pq esse é o objetivo maior disso tudo: viver em paz com o corpo e com a mente, e o esporte, ainda mais um esporte que exige tanto, é um grande caminho pra essa conquista.

13 fevereiro, 2006  

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