domingo, janeiro 29, 2006

“No esporte todos querem tirar proveito próprio”

Na foto acima, já postada anteriomente, Ricardo Cabral é o de bermuda, bigode e óculos escuros. Nas fotos abaixo, também de Sátiro Sodré, Cabral não aparece. Foram tiradas do site da CBDA para ilustrar: uma é do time feminino no Mundial de Desportos Aquáticos no Canadá e a outra é da seleção brasileira tetracampeã sul-americana juvenil.

Muito antes de pensar em ser jornalista ou trabalhar com propaganda e marketing, eu brincava com a bolinha amarela de Pólo Aquático no Fluminense e em outras piscinas do Rio e São Paulo. Se esses foram os melhores anos da minha vida, foi trabalhando nas áreas acima que sempre paguei e ainda pago minhas contas.

Digo isso porque, mesmo que a imparcialidade jornalística seja utópica, é desse princípio que se tem que partir por questões éticas básicas e por isso, considerando as inúmeras críticas já reproduzidas aqui em relação à CBDA, fiz questão de fazer essa entrevista com o supervisor de Pólo Aquático da CBDA Ricardo Cabral. Procurei incluir nas perguntas todas as críticas que me lembrei de ter lido ou ouvido e as enviei. Recebi as respostas no mesmo dia e agora as publico.

Mais uma vez repito que esse espaço está aberto para todos os amantes do Pólo Aquático, seja lá de que vertente forem e, acima de tudo, pros que estão na batalha para fortalecer o esporte no Nordeste.

Pólo Ceará - O Pólo Aquático já foi muito popular. Além de mexer com o conceito tão
familiar de "gol", com a vantagem de acontecerem muitos gols por partida, é um esporte muito plástico. Por que o jogo deixou chamar a atenção do público, a ponto da mídia quase ignorar o esporte?
Cabral - Existem alguns motivos que parecem ter levado o pólo aquático ao longo das últimas décadas a perder espaço na mídia. Primeiro, a disputa com modalidades de maior visibilidade e de apelo popular. Na década de 60 e 70 praticamente não se via, na mídia, matérias com surf, skate, vela entre outros. Esportes outdoor têm muito mais apelo na mídia. O pólo aquático, mesmo com algumas raras exceções, continua, ainda, a ser um esporte elitizado.

Um outro aspecto importante, é que para aparecer mais na mídia no Brasil, e se tornar mais popular, o esporte tem que ter resultados e no esporte coletivo, o resultado é bem mais difícil de aparecer. Muitos vão dizer, ah...mas o volei. Sim, o volei, na década de 70, classificava-se entre os 16 melhores do mundo, igual ao pólo. Graças ao Bradesco, através do Sr. Almeida Braga, amante dos esportes (financiou a carreira do Airton Sena e do Guga) o volei conseguiu (junto com a Pirelli) reunir em dois clubes metade da Seleção Brasileira (no Rio jogavam pelo BRADESCO e em São Paulo pela PIRELLI).

Com isso, foi se criando uma estrutura profissional e os resultados apareceram. Talvez tenha sido a única modalidade esportiva coletiva em que o investimento apareceu antes do resultado. Não pensem que se a Daiane dos Santos, o Wanderley Silva, entre outros, não tivessem resultados, estariam, hoje, na mídia, atraindo a atenção dos patrocinadores. Um outro fator, iniciou-se também no final dos anos 70, quando se começou a montar grandes equipes (UGF, Flamengo,etc..) que passaram a concentrar os melhores jogadores num só lugar. Resultado: acabou a competição. Não tendo competição, perdeu-se interesse e público. E sem ele, parte do apelo da mídia.


Pólo Ceará - Qual a avaliação do momento que vive o Pólo Aquático
brasileiro (masculino e feminino)comparando com o que foi proposto pela
atual gestão? Quais eram (são) as metas, o que foi cumprido e o que falta
cumprir?
Cabral - Posso afirmar que comparado as últimas décadas, o pólo aquático brasileiro vive um bom momento. Não em termos de resultados internacionais, porque, infelizmente, enquanto não diminuirmos a "distância" que nos separa dos grandes centros, jamais alcançaremos resultados expressivos (principalmente a distância técnica). Entretanto, costumo dizer que, se o Brasil troca-se de lugar geograficamente com Portugal, com certeza, mesmo com os recursos financeiros que temos, estaríamos disputando entre os oito melhores do mundo. Só para ter uma idéia do que digo, esse final de semana estão sendo gastos para treinamento das Seleções, aproximadamente R$ 13.000,00. Em Dollar, algo em torno de 6.000,00. Na Europa, colocaria todos num ônibus e ficaríamos treinando na Espanha, Itália, etc.

Estamos longe do que desejamos, mas bem afastados do que tínhamos anteriormente. Participamos das principais competições internacionais e com um pouco mais de investimento em treinamento, poderemos evoluir muito mais. Mas, todos devem fazer a sua parte.


Pólo Ceará - Como se dá a política de desenvolvimento do Pólo Aquático fora dos
centros Rio e São Paulo?
Cabral - A CBDA apóia, dentro de suas limitações financeiras e estatutárias, o pólo aquático no Brasil. Mas não adianta ser uma via de mão única. É importante que as Federações mostrem interesse em melhorar. Fico triste quando alguns me pedem para enviar uma caixa de bola e um jogo de toucas para iniciar a modalidade. Fico pensando que, quando as toucas e as bolas acabarem, vão acabar com a iniciativa. Quem realmente quer começar, joga com touca de natação, bola de plástico, etc. Quem quer começar, realmente, deve investir no profissional, esse sim que vai movimentar a modalidade.

Exemplos não faltam . Hoje temos Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraná, além de outros com Paraíba, Pernambuco, Pará e Amazonas com mais tradição. Mas, infelizmente, o mesmo problema que temos a nível internacional, temos a nível nacional: a distância. Tudo torna-se caro. Estamos apostando no Paraná (já realizamos três competições nacionais em dois anos), Florianópolis no feminino e esse ano estamos levando um Brasileiro de Infanto para João Pessoa. Dará certo? Esperemos que sim.

Pólo Ceará - Sempre se reclama muito que a CBDA prioriza a natação e deixa os outros
esportes de lado. Qual a realidade das condições de trabalho e investimento em Pólo Aquático no Brasil?

Cabral - Costumo dizer que o pólo aquático sofre da "síndrome do primo pobre". É preciso reverter a situação com muito trabalho e empenho. Escrevi uma vez, e fui muito criticado por isso que, um jovem nadador (15 anos) treina no mínimo cinco vezes mais do que um jogador de pólo na mesma idade. Olha que não precisa ser nenhuma Brastemp na natação.

É na base que se deve mudar essa cultura esportiva. Posso estar enganado, mas se perguntar a 100 jogadores de pólo juvenis, o que ele quer do pólo, nenhum deles vai dizer "Quero ser um dos melhores do mundo e vou me matar para isso!" (Desculpe-me, existem raras exceções, como foram o Felipe e o Kiko Perrone, que sempre quiseram ser os melhores do mundo e não mediram esforços para isso) Muitos, até de nível sócio econômico alto e com potencial para o esporte, jamais quiseram ir para o exterior aprender.

É mais fácil tornarem-se adultos, e culpar a estrutura, o trabalho, a CBDA, etc. Mas quando tinham tempo, nada fizeram.

Pólo Ceará - No site http://www.poloaquatico.com.br/ há uma nota em que o presidente da CBDA
Coaracy Nunes diz que já liberou a vinda de Tony Estellar, mas que não sabia da data da vinda porque o "pessoal do Pólo é muito enrolado." A afirmação transparece um certo distanciamento, como se o Pólo Aquático não fosse de competência do presidente da CBDA. Esse distanciamento ocorre mesmo?
Cabral - Desculpe-me, mas tudo que se relaciona ao site poloaquatico.com.br, prefiro não responder. Até mesmo porque, várias matérias publicadas contém informações falsas e tendenciosas. Na verdade nem sei se o Coaracy falou mesmo isso.


Pólo Ceará - Há alguma forma de evitar a saída dos grandes valores no auge de suas
formas para outros países, tanto no masculino quanto no feminino?
Cabral - No momento não. E acho, particularmente que, essa é uma boa opção para o pólo brasileiro. Isso é, colocamos os jogadores na vitrine participando de eventos internacionais e eles se tornam profissionais onde o esporte já é profissional. Se tivermos 60 a 70% do time base jogando na Europa, é mais barato levar os outros e fazermos bons treinamentos. Temos que ser realistas. Com o tempo o resultado começará a aparecer e podemos reverter o ciclo vicioso que exige o resultado antes do investimento.

Pólo Ceará - Uma das críticas mais recorrentes nas conversas que tive com jogadores é
que você centraliza muito as atividades e se fecha sem ouvir ninguém. Como você encara esse ponto de vista?
Cabral - Aprendi ao longo dos últimos anos que até a página 20 eu escuto todo mundo, da 20 a 50 eu decido e da 50 em diante quem decide é o presidente da CBDA. Como diz meu amigo Pagura, "não conheço a fórmula do sucesso, e se conhecesse não daria a ninguém. Venderia”. Mas a fórmula do fracasso é querer agradar a todo mundo. E pode ter certeza que, no esporte, todos querem tirar proveito próprio. Afinal, é competição. Na final do João Havelange de 2005, quando resolvi colocar o Tijuca em substituição ao Paineiras, tanto o Botafogo quanto o Pinheiros me acusaram de favorecimento.

Conclusão, a competição aconteceu e venceu quem se apresentou melhor. Venceu também o pólo aquático que mostrou maturidade provando que não pode depender, apenas de A,B ou C.

Pólo Ceará - Existe um comodismo nas reclamações, algo como todo mundo esperar a CBDA e ninguém fazer nada? A CBDA incentiva iniciativas independentes?

Cabral - Quanto mais iniciativas independentes, melhor. Até mesmo para sentirem que as coisas não funcionam tão fáceis como parecem. As pessoas que tentam fazer algo, passam a dar mais valor aquilo que já conquistamos.



Pólo Ceará - Há como se ter um calendário com mais competições durante o ano inteiro,
inclusive com participação de cidades fora do Rio-SP?
Cabral - Quando entrei na CBDA, vindo do Fluminense (aliás, você foi meu atleta), a CBDA fazia 7 a 8 competições nacionais. Hoje temos 17. O problema é que não podemos fazer competições longas porque os clubes fatalmente não suportariam. Fizemos em 2005 um João Havelange mais longo e três clubes de expressão abandonaram a competição, quer seja por um motivo ou outro.

Agendei uma competição em João Pessoa e já estou sendo chamado de maluco. O pólo era a única modalidade na CBDA que não realizava campeonatos fora do eixo Rio-São Paulo. A realidade dos clubes é tão ruim que as equipes do Rio só participam de jogos em São Paulo porque a FARJ financia boa parte da viagem e os pais financiam o restante. Clubes de grande porte em São Paulo não dispõem de orçamento para todas as competições.

Pólo Ceará - Existe uma estimativa de quantas pessoas praticam Pólo Aquático hoje no
Brasil?
Cabral - Um levantamento mais recente mostra aproximadamente que 2000 atletas no masculino estão inscritos. Isso não quer dizer que estejam em atividade. Existem, ainda, um número de atletas que jogam,mas têm seu registro na natação

Pólo Ceará - Resumindo: cobra-se muito da CBDA a popularização do Pólo Aquático, um calendário com muitas competições, uma seleção permanente com jogadores (as) recebendo
o suficiente para se dedicarem exclusivamente à seleção e maior intercâmbio
com equipes européias. O que é utopia e o que é possível fazer?
Cabral - Acredito que parte da pergunta já foi respondida anteriormente. O pólo é elitizado. Quanto um jogador de pólo poderia dentro da nossa realidade receber para se dedicar, apenas à Seleção. Cinco mil reais é um bom valor? Quantos abdicariam de tudo para treinar duro por 5 meses no ano? E o resto do ano? Quem pagaria o salário? Para quem não sabe, na Europa, o jogador só recebe da Seleção, quando está treinando para alguma competição. O resto do ano quem paga salário é o clube.

Mas aqui muitos acham que a CBDA deve pagar para todos o ano inteiro, já que os clubes não pagam. Resumindo, só se pensa no pólo profissional na Seleção. No handebol feminino me parece que as meninas recebem em torno de R$1.500,00 por mês. Por terem condições sócio-econômicas menores, encaram a bola de handebol como um meio de mobilidade social.

Pólo Ceará - Quais as expectativas da seleções feminina e masculina para o Pan? Será
que vamos repetir as medalhas do Pan passado?
Cabral - Repetir medalhas tenho certeza que sim. O que queremos é subir degraus no pódium. Difícil, mas não impossível. Acredito que 2006 será um grande ano para isso. Pelo menos, existem esforços mais direcionados da CBDA, do COB e do Ministério dos Esportes.

Pólo Ceará - Fica aberto o espaço para alguma consideração final aos amantes do pólo
Aquático.
Cabral - Quero apenas dizer que gosto do pólo tanto como todos que praticam e praticaram. Por ser profissional do esporte tenho a necessidade de ser imparcial nas decisões tomadas. Agrado uns e desagrado outros. Não me considero uma pessoa pessimista em relação ao esporte, e sim realista. A CBDA deve melhorar em alguns aspectos? Acho que sim. Entretanto, acho que juntos, podemos pressionar mais. Digo isso sempre aos técnicos. Vocês são meia dúzia de gatos pingados que brigam mais por interesses próprios do que por interesse comuns. Se apresentarmos propostas conjuntas, teremos mais força para conquistarmos muito mais.

3 Comments:

Anonymous Satoshi said...

Realmente.. dá para sentir um realismo que beira o pessimismo!
Infelizmente, não existe uma cultura do pólo aquático no Brasil!! Quem joga hj em dia (e digo em todos os níveis) é por pura paixão mesmo!
Iniciativas como a citada no início de nossas atividades - "braços abertos" (acho que era esse o nome), onde crianças de baixa renda teriam acesso ao esporte sem custos adicionais - são muito importante para massificar o esporte e revelar talentos!
É um investimento em longo prazo! é uma semente! Merece uma atenção especial! Não só aqui!! Mas onde houver polo aquático!

Valeu pela excelente entrevista Hélcio!
Boa sorte ao Cabral nos seus trabalhos!

29 janeiro, 2006  
Anonymous Dirceu said...

Parabéns ao Blog por mais uma entrevista interessante.

Nós do Nordeste precisamos de muito empenho e criatividade para desenvolver um pólo aquático de maneira sustentável.

Como acontece na natação em vários lugares deste país, precisamos trazer pessoas das áreas carentes para praticar este esporte de que tanto gostamos. Será que é possível? Acho que sim. Precisamos começar. A única maneira de termos um pólo mais forte aqui em Fortaleza é montar uma escolhinha, e formar pelo menos dois times para que a gente possa animar a meninada com vários torneios ao longo do ano.
Se formos depender apenas de torneios esporádicos (e que são necessários, principalmente agora) ao longo do ano, o pólo continuará a depender única e exclusivamente de um outro abnegado, e essa situação, infelizmente, não se sustenta por muito tempo.

30 janeiro, 2006  
Anonymous Anônimo said...

Ficou muito boa a entrevista, PARABENS aos 2, pela PERSEVERANÇA.
E vamos pra FRENTE !!!!!

31 janeiro, 2006  

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