domingo, abril 08, 2007

Lá vem o Pará!

Desde que começamos o Circuito, ano passado, ouvi várias vezes de times diferentes: "Com o Pará a gente não joga". A fama do pessoal da terra do açaí não era nada boa. "Desleal" era o adjetivo mais gentil. Havia tanto folclore e histórias absurdas em torno dos caras que, admito, eu estava curioso por conhecê-los.

Não foi preciso muito trabalho. Um dos principais nomes da equipe, Maurício Bittencourt, professor especialista em Educação Física, com 30 dos seus 43 anos dedicados ao Polo Aquático, nos procurou com a maior gentileza do planeta e, antes de qualquer coisa, quis deixar claro que o tempo dessa má imagem passou, e que o mais importante para eles é o crescimento do esporte que tanto amam. E pra apagar de vez a impressão ruim, vamos lembrar que se o passado do Polo Aquático paraense é de glórias, não há porque num futuro breve não voltar a ser. E isso só se consegue na bola amarela.

Maurício e sua equipe são muito bem-vindos ao Circuito.

Pólo Ceará - Vamos começar pelo tradicional. Como você começou no Polo Aquático?

Maurício - Começou com um convite por um Professor de educação física do bairro que nos via brincando na rua. Fomos no 1º dia e não saímos mais. Incluo meu irmão nessa história.

Pólo Ceará - Na época havia mais apoio ao esporte ou era ainda pior que hoje?

Maurício - Havia mais apoio, lembro que fomos a campeonatos e ficávamos em hotel, não tirávamos nada do bolso. Isso sem falar nos JEB’s, época boa que não volta mais.

Pólo Ceará - Começar o Polo Aquático, muita gente começa, vai a dois treinos, diz a vida inteira que treinou e não passa disso. Quando foi que você sentiu que esse era o seu esporte?

Maurício - Persistir, perseverar, ser disciplinado, acreditar, isso tudo é pra pouca gente, lembro que no meu 1º JEB’s em 1978, nem amistoso eu joguei, fui pra ver e absorver. Em 1980, comecei a ser titular com os veteranos, e em 1981, fui o 2º artilheiro do JEB’s, aí senti que esse era o esporte que ficaria até hoje e que me projetaria como atleta e pessoa.



Pólo Ceará - O grande momento de sua carreira, até onde sei, foi um evento em que chegou a ganhar do Botafogo com o Solon dentro da água. Como foi essa competição?

Maurício - Foi uma competição difícil em todos os sentidos. 1º que tivemos que cortar um colega na competição por votação, pensávamos que poderíamos levar 14 atletas fazendo um rodízio e na hora não podia, foi horrível. 2º perdemos um atleta no primeiro jogo com falta grave no último minuto, conseqüentemente foi expulso sem direito a substituição e ficou fora dos outros jogos. 3º um dos nossos se rebelou e abandonou a competição, só voltou na final. 4º na semi final contra o Botafogo, perdemos 2 atletas com 3 faltas, advinha quem era o centro deles? Claro ele com sua técnica e força levou a isto. Mas o time estava inspirado, o nosso goleiro agarrou um 4 metros e justamente do Sólon, neste jogo eu fiz 8 gols, no final ganhamos de 13 X 11. Sem menosprezo a nenhuma equipe, mas acho que esse jogo foi a final do campeonato, pois ninguém acreditava que algum time vencesse o Botafogo, até no congresso técnico se falava em Botafogo e mais um classificado pra divisão especial, só que ninguém queria cruzar com eles e pra infelicidade deles cruzaram conosco e deu no que deu.

Pólo Ceará - Você viveu o Polo Aquático em Pernambuco e no Pará. Qual a diferença das duas escolas?

Maurício - O Pólo de Belém é uma mixórdia de técnica e força, habilidade e muita marcação, muita raça, mas acho que o nosso time em particular criou um ambiente tão fraterno, de companheirismo e amizade que um supria a ausência do outro, era muito difícil de superar esse time. Lembro que em 1991 fizemos um jogo com homem a menos desde o final do 1º período na piscina do Sport contra o Náutico, imaginem a nossa situação, 3 períodos com um jogador a menos? E no decorrer perdemos mais duas pessoa com 3 faltas, pessoas importantes na equipe, mas nos superamos mais uma vez e ganhamos de 14 X 10, fiz 10 gols neste dia. Acho que a escola de Recife é oriunda de nadadores e joga muito em função da natação.

Pólo Ceará - Como você definiria seu estilo de jogo? Quem foi o melhor jogador que você viu atuando?

Maurício - Meu contra ataque era fatal, as pessoas não atacavam por inteiro, sempre ficava um atrás para evitar o contra ataque, acredito que tenho muita técnica e controle de bola, um excelente chute com elevação. Vi muitos craques e joguei contra eles, Sólon, Eric Borges, Léo Vergara, cada um com seu estilo, mas ficaria com 2, Sólon e Leo Vergara, eles fazem o estilo de jogo que eu gosto, são artilheiros como eu.


Pólo Ceará - O time do Pará está de volta às competições depois de ficar na geladeira por ser considerado um time desleal e violento. Como você tem feito para fazer a nova geração discernir que jogo duro não tem nada a ver com jogo desleal?

Maurício - Temos conversado muito entre nós veteranos e a molecada que está subindo tem notado a diferença de atitude. Acho importante termos a consciência do que fomos e o que podemos ser, nossos treinos hoje são mais na bola e menos violência. Advirto e informo que quando fomos violentos sofremos baixas, não fomos acobertados, jogamos com a menos, mas isso não justifica a agressão. Só não quero que pareça que fomos beneficiados pela agressão que cometemos.

Pólo Ceará - Qual a sua expectativa em relação ao Circuito?

Maurício - Muito grande em retornar aos torneios N/Ne/CO, parece até demagogia, ma estou empolgadíssimo, acho que é a responsabilidade pela renovação e estar à frente no planejamento do treinamento, da viagem. Agora o mais importante é conhecer os seus limites, anseios e fazer novas amizades como fiz na minha trajetória no esporte, hoje tenho amizade com muita gente do nordeste e centro oeste como os irmãos Leonardo, Edmundo e Rivaldo da Paraíba, Passarinho de Recife e outros a quem sempre encontrava nos campeonatos.

Pólo Ceará - No Pará vocês têm uma boa relação com a Federação local. Infelizmente há outras federações que simplesmente ignoram o Polo Aquático, e vários estados se negam a federar seus atletas porque tiveram experiências muito negativas. Como você acredita que seria o melhor caminho pra unir todos em um objetivo comum?

Maurício - Primeiro é a forma como está acontecendo esse circuito, organizado e respaldado por todos, pode até não ser o fino da organização, mas tem a aquiescência de todos, isso já concretiza o sucesso do evento. Segundo que, realizando-o, força a Federação, e conseqüentemente a Confederação, a tratarem com mais respeito os atletas fora do eixo Rio/Sampa. Aqui fazemos nossa parte e se a federação não apoiar, fazemos mesmo assim, corremos atrás de grana e patrocínio.

Pólo Ceará - Como você vê as mudanças do Polo Aquático do seu auge pra hoje em dia?

Maurício - Hoje as pessoas não têm o envolvimento e comprometimento com o outro, reitero que se um dia fomos campeões por 10 anos foi com muito envolvimento e comprometimento com os nossos propósitos, nossos objetivos eram um só, não tinha um que aparecia mais que o outro. Todos se envolviam ao ponto de pagarmos por todos que não tinham, rachar a comida com os que não podiam e comprar no cartão de crédito pra 2, 3 ou mais pessoas que não dispunham no momento. Hoje após o jogo, nos sentamos num restaurante pra almoçar e reviver nossos momentos, falar de nossas famílias e projetar perspectivas. Todos sabem o dia do aniversário do outro, e conseqüentemente não precisa convidar, vamos à casa do aniversariante levando a caixa de gelada.

Pólo Ceará - O que você considera que de mais importante o Polo Aquático trouxe à sua vida nesses 30 anos de dedicação ao esporte?

Maurício - O esporte me deu disciplina, me fez ver quanto o outro é importante para o todo, que a cumplicidade é importante pra reverter a situação e que a amizade verdadeira está no comprometimento consigo e com o próximo, jamais se abata ou fuja do problema, tente entender a situação e construir saídas para superar as dificuldades, acredite em você e no seu potencial, se comprometa com a equipe, dê a valor a amizade.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Modéstia a parte...

12 abril, 2007  

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