domingo, fevereiro 05, 2006

"Os maiores responsáveis por essa situação do Pólo nacional somos nós mesmos"

Há mais ou menos um mês o Michel mandou um email parabenizando a gente pelo blog, pela tentativa de tentar colocar o Pólo Aquático pra frente em Fortaleza, pedindo o email do Marlus, seu ex-companheiro de clube no Tijuca, e pedindo dicas de lugar para se hospedar por uns dias em Fortaleza.

De lá pra cá temos mantido contato freqüente, ele se mostra sempre muito solícito e interessado em ajudar, o que me deu a certeza de que o garoto que vi muitas vezes tímido nas beiras de piscina não tinha se tornado em nada no vilão que algumas pessoas pintaram nos últimos anos. Michel não é apenas um excelente jogador e um chutador de primeira, é um cara que desperta polêmica pela maneira sincera com que emite as suas opiniões. Como todos nós, ele pode errar muitas vezes, mas o fato de expor seu pensamentos já significa muito. Muita gente vai ficar incomodada, mas não tem jeito: o Michel está de volta.

Pólo Ceará - Lembro de você ainda magrinho no Guanabara como uma promessa. Não acompanhei de perto, mas me parece que de repente você explodiu, melhorou muito num curto espaço de tempo. Isso é só impressão minha ou de fato ocorreu esse salto de qualidade e, se aconteceu, o que te estimulou?

Michel - Hélcio, antes de qualquer coisa, gostaria de parabenizar você pela iniciativa e dizer que na minha opinião, você, o Figueroa lá em Curitiba, o pessoal de SC, o Bolitreau em Recife e outros que eu me desculpo por não citar aqui, são os verdadeiros heróis do Pólo Aquático brasileiro. Certamente, cada vez que pessoas como vocês jogam uma semente em qualquer estado fora do eixo Rio-SP, vocês fazem muito pelo polo nacional.

E também queria parabenizar o Ploc, o Canhoto, o Rafael Muchinho, Brasilia, Yuri e o resto do pessoal do Guanabara (GB). Não fossem vocês, o clube com maior tradição no pólo aquático brasileiro (indiscutivelmente) provavelmente não apresentaria equipes para esse ano que entra, o que por si só seria uma tragédia para o pólo aquático brasileiro. Espero que o GB saiba reconhecer isso um dia, quando ele começar a formar grandes atletas e conquistar títulos de novo.

Quanto à a pergunta, não acho que no meu caso tenha acontecido esse salto. Eu comecei a jogar adulto quando era ainda infantil. Me lembro que na melhor tradição dos atletas do Guanabara, eu era extremamente fominha. O Michel Zelaquet era técnico do adulto e eu sempre ficava sentado na borda depois do meu treino esperando pra ver se jogava uns 5 minutinhos do final do coletivo do adulto e isso um dia aconteceu quando alguém se machucou. E depois quando o Beiçola assumiu, a mesma coisa. Até que um dia, abriu uma vaga no adulto e a chance me foi dada.

A palavra salto seria melhor aplicada no caso do Kiko, que após a chegada do Barbaro, pulou de reserva da seleção, para um dos pilares da equipe em curtíssimo espaço de tempo. Aliás, o Barbaro contribuiu muito para que o Daniel também se tornasse um jogador internacional de alto nível.

Pólo Ceará - Quem são seus ídolos no Pólo Aquático?

Michel - Meu único ídolo se chama Jesus Cristo. No pólo aquático nacional, existem jogadores que me influenciaram e era um prazer vê-los jogando como Airton, Eric, Carsalade, Sul, Duda, Solon, Luiz Guilherme, Leo Vergara, Perrone, Pará e Fred por exemplo. Da minha geração, eu destaco o Daniel, Kiko e o Felipe como grandes expoentes

Pólo Ceará - Mesmo nos muitos anos em que estive desligado do Pólo Aquático, sempre ouvi referências a você como um dos melhores chutadores do Brasil. Como eram os seus treinos?

Michel - A fórmula já foi dita aqui antes e eu vou ser só mais um a repeti-la. Treinar mais do que o resto.

E o GB sempre ofereceu essa facilidade a quem quisesse. O treino terminava as 9:45 mais ou menos e podíamos chutar a gol até às 23h se quiséssemos. E obviamente o Pará foi fundamental nesse processo. O Barriga, ex-atleta do GB (que hoje está ajudando a molecada do Flamengo) também foi de uma ajuda incrível para nós. Mas a verdade é que nada nos atrapalhava. Quando o Pará tinha que sair cedo, nos revezávamos e um da linha ia pro gol. Cansei de ganhar partidinhas do Kiko e dos outros mais novos quando ia pro o gol. E a aposta era sempre a mesma: um pacote de biscoito recheado. Tenho certeza que alguns deles vão rir quando lerem isso e lembrarem-se.

Mas entendam, a mensagem não é de que eu ganhei partidinhas de Kiko, Beto Seabra, Paulinho Lacativa e companhia: É DE QUE VOCÊ DEVE USAR QUALQUER UM QUE POSSA TE AJUDAR A MELHORAR! E naquela época, eu era um bom goleiro pra eles. Obviamente num curto espaço de tempo, eu já não era mais páreo. Também existem acessórios que podem ajudar. Me assusto quando vou num clube e as bolas pesadas estão todas no armário paradas. O grau de melhora tanto no passe quanto no chute é incrível depois que o uso de bolas de peso na água vira uma rotina.

Voltando ao assunto de ser fominha, vou dar exemplo: pra poder ficar chutando até tarde, tínhamos um trato com o piscineiro: tirávamos o gol e esticávamos as raias pra que ele pudesse ir pra casa numa boa as 22hs, que era o horário dele. Como você deve ter notado, não foi a toa que uma grande parte dos ex-atletas do GB se tornaram bons jogadores e atletas de seleção.

Pólo Ceará - Num dos artigos do Ricardo Perrone ele teve a coragem de romper com o "politicamente correto" e afirmar que o soco que você deu no jogo contra a Argentina foi necessário. Qual era o contexto e qual a repercussão que teve na sua carreira?

Michel - O contexto: 13 jogadores argentinos, os 2 juizes e mais ou menos umas 2000 pessoas contra o Brasil. O jogo fervendo, os argentinos agredindo sem medo de punição; lembrando que o juiz espanhol fez turismo com eles durante quase um mês na Europa com tudo pago, e os brasileiros tentando administrar o jogo da melhor maneira possível. Brasil 4x2, faltando 5 segundos para o término da partida 3 argentinos voaram em cima do Kiko e o agrediram. Depois disso é difícil explicar, eu só lembro de ir nadando tentando chamar o mínimo de atenção e pensar: “são 3, eu pego um de jeito e acho que 15 segundos é mais do que tempo de aparecer alguém pra me ajudar, ou então eu estou morto!”. Mas depois que eu acertei o Mariano, por incrível que pareça, os caras recuaram, o Kiko pôde sair fora e o resto da história todos já conhecem.

Se eu faria isso de novo? Não sei. Me decepcionei muito com alguns que se diziam meus amigos dentro da seleção e depois vim a descobrir que eram melhores fazendo intriguinhas, gerando grupinhos dentro do time e falando mal dos outros pelas costas do que jogando propriamente. Mas esse é só o retrato do polo brasileiro hoje em dia. Fracassados anônimos que nunca jogaram numa seleção querendo esculachar quem está ou já esteve lá. Retardados anônimos alimentando esse bairrismo imbecil de SP contra Rio. Recalcados anônimos reclamando de panela na seleção, etc... Mas como disse, não sei. Teria que acontecer novamente pra eu poder te responder.

Pólo Ceará - Como foi a experiência de jogar nos Estados Unidos? Dá para fazer um comparativo com o Brasil?

Michel - Estudar nos EUA foi uma chance de levar algo mais do esporte. E ao mesmo tempo, em 3 anos fiz amizades lá que se mostraram muito mais valorosas do que as que eu fiz aqui em 15 anos. Não tem como traçar um paralelo pq a estrutura é diferente. Lá as universidades são obrigadas por lei a investir dinheiro no esporte. E a quantidade é astronômica no caso de algumas universidades como Texas University e Stanford por exemplo. Existem mais jogadores de pólo hoje em Michigan (seria um Paraná se pudéssemos comparar) do que no nosso país todo. Quando o assunto é seleção, aí poderia-se estabelecer uma linha de comparação. Deixa-se o âmbito universidade e entra a Federação Americana. Os melhores são selecionados, investe-se neles, eles acumulam em curto espaço de tempo uma bagagem internacional invejável e só’ depois são cobrados resultados.

Processo inverso ao que acontece no Brasil. Aqui, envia-se uma seleção completamente despreparada e aguarda-se algum resultado maravilhoso, só aí é oferecida alguma condição de treino pro atleta. Essa fórmula vem sendo repetida desde que entrei no esporte e o resultado é sempre o mesmo. E pelo jeito vai se continuar fazendo isso por um bom tempo.

Pólo Ceará - Você fez críticas à CBDA que geraram alguma polêmica. O que exatamente falta para o Pólo Aquático se desenvolver no campo de atuação da CBDA e por que essas críticas são tão recorrentes?

Michel - Fico feliz que depois daquela minha 1ª entrevista, mais atletas, alguns até considerados bons garotos (o que no Brasil significa ficar calado) tenham saído do armário e tenham começado a mostrar sua insatisfação com a CBDA.

A CBDA precisa reformular as obrigações dela como entidade. A competência da CBDA hoje é organizar competições (dito pelo próprio coordenador) e ele deveria ser tb POPULARIZAR O ESPORTE, INCENTIVAR DE TODAS AS MANEIRAS O APARECIMENTO DE NOVOS FOCOS E AUMENTAR A QTDE DE PRATICANTES.

Entramos em 2006, você sabe quais são as metas da CBDA para o Pólo Aquático esse ano? Eu também não. Repito que jogar a Liga Mundial ano passado foi um erro. COMPETIÇÕES INTERNACIONAIS SÃO PARA COMPETIR, NAO PARA TREINAR!

A eficiência no uso do dinheiro tem que ser maximizada. Imagine que uma viagem tenha custado US$50 mil e durante a competição, jogou-se 7 partidas. Cada partida custou US$ 7,142. Agora, imagine-se que fora os jogos, conseguiu-se jogar ainda mais 10 coletivos, o que basicamente equivale a uma partida. O custo por partida caiu quase 60% p/ US$2941. E toda vez que acontecer uma competição internacional, na volta deveriam ser chamados os técnicos, juizes e alguns jogadores pra passar o que foi aprendido durante a competição, o q há de novo, etc...

Ao mesmo tempo venho aqui dizer que a CBDA prestou um grande serviço ao pólo nacional quando incluiu um técnico na comissão com a tarefa de filmar partidas: Todas as seleções de ponta tem alguém filmando enquanto o Brasil sempre dependia de um atleta (que no Brasil só vai mostrar o vídeo no próprio clube), para ter um arquivo de uma competição.

Mas tenha certeza de uma coisa, OS MAIORES RESPONSÁVEIS POR ESSA SITUAÇÃO SOMOS NÓS MESMOS! A desunião entre técnicos, atletas, jogadores e juizes é um câncer que está corroendo o pólo aquático nacional. Se na minha ultima competição, o mundial de Fukuoka, humilhamos o Canadá, agora estamos atrás deles e dos Cubanos aqui nas Américas, resultado de um processo iniciado há aproximadamente 10 anos, quando começou uma cultura de montar equipes inteiras depenando outros clubes. Vide o que fizeram com o Guanabara, o mais prejudicado de todos. E o resultado disso não tardou a aparecer, hoje estamos em 4º lugar nas Américas. Mas repito, esse é o preço que pagamos pelo egoísmo de alguns técnicos e dirigentes em olhar somente o próprio nariz e esquecer de que quando você depena um clube menor ao invés de investir na sua própria escolinha, você começa uma bola de neve que atinge o pólo aquático como um todo. Os resultados são sentidos nacionalmente e não só no seu estado ou no clube que perdeu atletas.

Pólo Ceará - Você está voltando a treinar. Onde você vai jogar? Será que dá para se integrar à seleção que vai para o Pan?

Michel - Eu estou voltando a treinar aos pouquinhos. Um pouco no TTC, onde tenho alguns amigos, um pouco no GB, mas a verdade é que no momento eu nem sei ainda onde vou morar. Quantoo a jogar de novo pelo Brasil, isso envolve várias etapas. Primeiro eu teria que ser convocado de novo, depois mostrar que tenho qualidades pra estar entre os 13 melhores. Mas agora, um pouco mais velho, um novo fator entra na decisão; se eu achar que não me será oferecida uma estrutura mínima de preparação, quer dizer, mais uma vez uma seleção está sendo preparada pra tomar goleadas no exterior, eu me dou o direito de não aceitar a convocação ou então pedir dispensa. Ao contrário do que acreditam algumas pessoas, qualquer atleta gostaria sim, e muito, de representar o seu país com o mínimo de dignidade, mas nem isso nos é dado.

Ao mesmo tempo, meu sonho como atleta é representar meu pais numa Olimpíada e sempre defendi a tese de que a melhor chance é o Pan, então existe uma boa chance de que eu volte a jogar pelo Brasil.

Pólo Ceará – Se de fato der certo você tirar uns dias de férias e vir pra Fortaleza, sua presença será muito bem-vinda. O que você poderá mostrar pro pessoal aqui em Fortaleza?

Michel - Hélcio, se der certo essa viagem, mesmo de férias irei ajudar no que for possível. Eu pretendo conversar de tudo um pouco, mas a minha meta principal é mostrar a importância dos fundamentos no nosso esporte. Tenho plena convicção de que qualquer atleta forte nos fundamentos já está bem posicionado pra se destacar no seu clube ou até mesmo um dia se tornar jogador de seleção. Em todos os lugares aonde eu ia nos EUA, uma das minhas preocupações também era mostrar que o tamanho pode ajudar, mas não decidir a carreira de um jogador. E também irei mostrar a importância de se jogar inteligentemente, ao invés de fazer uso da forca sistematicamente pra se sobressair. De resto, caso tudo corra bem , nos vemos aí em Fortaleza e muito obrigado pelo espaço.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Por que ninguem comenta sobre A LIGA !? Isso existe mesmo, ainda?

Ei, tomara que venhas para o Torneio da Semana Santa, com o MASTER´S OLD FELLOW´S (acho q é assim q se escreve) e outras equipes. E acho muito pouco o que fazemos pelo nosso esporte e o que fazem por Ele.

06 fevereiro, 2006  
Anonymous Satoshi said...

Outra grande entrevista!!
Mais um que será muito bem vindo aqui, com seus ensinamentos e experiência!

E.. outra vez... para não deixar dúvidas... PÓLO É TREINO!! É EMPENHO!! É REPETIÇÃO DE FUNDAMENTOS (APARENTEMENTE SIMPLES) ATÉ A EXAUSTÃO!!!

Valeu, Michel..
Valeu Hélcio

06 fevereiro, 2006  

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