quarta-feira, outubro 11, 2006

"WP é como o ar que eu respiro"

Se alguém te contar a história do polo aquático brasileiro nos últimos 30 anos sem citar o nome de Carlos Carvalho, vire de costas na hora porque esse cara não sabe nada de Polo Aquático. Carlinhos é nome obrigatório. Foi craque jogando e é craque fora da piscina. Ele, a mulher e as duas filhas amam o esporte. Se não existe como falar do passado nem do presente sem citá-lo, é muito recomendável que os responsáveis pelo futuro ouçam o que ele tem a dizer. O Polo Aquático brasileiro merece.

Pólo Ceará - Vamos começar pelo básico. Como você começou a jogar Pólo Aquático e o que você acha que o levou a ser um atleta de ponta?

Carlinhos- Sempre fiz esporte e, como toda criança, fui levado por meus pais a uma piscina para aprender a nadar. Acabei, mais tarde, entrando na equipe de natação do Botafogo. Depois de um certo tempo, comecei também a jogar futebol no clube. A verdade é que eu não tinha talento suficiente para ser um nadador de ponta. Um dia meus dois treinadores, o Bonfim (já falecido) e o Matheus, me aconselharam a mudar de esporte. Me sugeriram, então, o Pólo Aquático. Com certeza, nem eles sabiam ao certo o bem que estavam me fazendo. A mudança aconteceu no fim do ano de 1971. Logo no início de 72, comecei no Pólo Aquático do Botafogo - na escolinha, sob a orientação do prof. Waldir Ramos.

Seis meses depois, após ser campeão do Campeonato de Estreantes (um campeonato que não deveria ter terminado), fui integrado às equipes do clube - sob a direção do prof. Edson Perri (o Barriga).

Com a conquista do Campeonato de Estreantes, e após o término do Estadual Juvenil, fui convocado para Seleção Brasileira Juvenil, começando, assim, a minha trajetória na Seleção Brasileira – a qual foi encerrada após a participação no Sul-Americano de 1988, no Rio de Janeiro.

O que me levou a ser uma atleta de ponta? Muita dedicação aos treinos, disciplina, respeito ao meu técnico, aos meus companheiros de equipe e aos meus adversários.

Pólo Ceará - Como foi participar das Olimpíadas de 84? Como você avalia o nível daquele time em relação ao contexto internacional?

Carlinhos - Participar de uma Olimpíada é uma sensação indescritível. Estar ao lado dos melhores jogadores do mundo, saber que está sendo visto e acompanhado por todo o planeta, representar seu país no maior evento esportivo da Terra, tudo isso e muito mais, é mesmo algo que não tem preço. Fica guardado para sempre na memória.

Participamos da Olimpíada de 84 em virtude do boicote do Bloco Socialista - não jogaram Hungria, Rússia e Cuba, mas estavam presentes países como Iugoslávia, Itália, Espanha, Estados Unidos, Grécia e Alemanha. Ou seja, apesar do boicote, foi uma olimpíada de altíssimo nível.

Quanto ao nível daquele time, sinceramente, o mesmo de hoje. Aquela Seleção estava na mesma posição que a Seleção atual. Até porque o que devemos observar não é somente o resultado de uma seleção, mas, sim, o resultado da modalidade.

Como estávamos, e como estamos, em nível sul-americano, pan-americano, mundial em todas as categorias. Se fizermos um paralelo, vamos ver que os resultados não diferem a ponto de concluirmos se estamos melhores ou piores.

Exemplo? Nossa última participação olímpica foi em 1984, faz 22 anos. Quantas gerações tentaram a classificação? Participamos em 84 em virtude do boicote, antes disso, nossa última participação foi em 1968, no México - ou seja, se não tivesse havido o boicote, o Pólo Aquático Brasileiro estaria há 38 anos fora de uma olimpíada. Veja quantas gerações de atletas, técnicos e dirigentes tentaram e não conseguiram levar nosso esporte a uma Olimpíada.

Polo Ceará - Lembro muito de você como treinador no Guanabara, lá pelos anos 80. A imensa maioria dos jogadores que passou por lá (e por todos os clubes) na época deve ter abandonado o WP de forma precoce. No Fluminense, por exemplo, lembro que a cada coletivo uns 30 ficavam fora esperando para entrar. Existe uma forma de incentivar esse pessoal mais novo pra evitar que tanta gente desista do WP?

Carlinhos - Existem algumas diferenças, mudaram-se hábitos de vida, se mudou a forma de ver e praticar esporte. O jovem, hoje, tem outros afazeres que competem com o esporte, principalmente quando a modalidade não é profissional. Atualmente, a criança, desde cedo, é encaminhada a praticar esportes que são profissionais, pensando que ali está um futuro promissor.

É claro que podemos reverter a situação que você coloca. Primeiro, temos que ter um plano de desenvolvimento nacional para, então, partirmos para os setoriais. É preciso programar melhor nossos calendários. É preciso, ainda, que nossos atletas estejam em atividade o ano inteiro. Não dá mais para jogar um campeonato de quatro dias e, somente três ou quatro meses depois, outro evento nos mesmos moldes.

Temos, e me incluo no contexto, de avaliar se a formação de nossos atletas está sendo feita da melhor maneira, se o modelo adotado por nós é o mais efetivo para o Pólo Aquático Brasileiro. Enfim, há muito que podemos fazer, mas devemos ter a consciência de que qualquer mudança só acontecerá se nos unirmos fora da piscina. Se todos que têm alguma ligação com o Pólo se unirem em prol de um só objetivo.


Pólo Ceará - A impressão que tenho é que depois da geração olímpica, que você fez parte, houve uma excelente "safra" em 67 (Pará, Luis Guilherme, Chaia, Nandinho e muitos outros) e depois a do Kiko, Michel, Daniel, Beto... Mesmo considerando que o esporte sofreu várias mudanças, comparando essas gerações e a atual renovação da seleção, dá pra dizer que o Pólo Aquático brasileiro está em um processo de evolução? O que fazer pra esse processo (caso exista) ser contínuo?

Carlinhos - Penso que o Brasil teve outras gerações do mesmo nível, ou até melhores do que as mencionadas, anteriores à minha. A minha geração foi muita boa, a geração que tinha Pinduca, Barriga, Perrone, Luisinho, Pedrinho, Gilson e Gilberto, entre outros, também foi muito boa. Antes, outras de excelente nível existiram.

O problema é que sempre temos uma equipe com bons jogadores, mas não temos gerações. Para simplificar, o exemplo Voleibol: não são só as equipes principais Masculina e Feminina que são boas. As seleções Infanto-Juvenis e Juvenis são as melhores do mundo, ou estão entre as melhores. Isso é ter gerações, é ter continuidade de trabalho.

Você me pergunta sobre a atual renovação e, eu te pergunto, qual renovação? Os jogadores convocados são os mesmos, apenas alguns juniores a mais estão treinando, visando o campeonato da categoria, ano que vem. No Pré-Mundial, você verá os mesmos jogadores, ou melhor, a possibilidade de serem os mesmos até o Pan é muito grande.

E isso não é uma falha ou erro da Comissão Técnica da Seleção, isso é a nossa realidade. No Brasil, se fala em renovação com uma facilidade impressionante. A verdade é que temos poucos praticantes. E vai chegar um momento em que alguém vai dizer: ‘Poxa o Gabriel Reis já está há muito tempo na Seleção’, mas quando for ver, ele tem apenas 22 anos. O mesmo vai acontecer com o Felipe (Charuto). E assim vai.

Olhemos as seleções pelo mundo, sei que a realidade é outra, mas observemos; as principais seleções têm raríssimos jogadores juniores nas equipes. As seleções da Espanha e da Itália acabaram de fazer uma "renovação" - saíram jogadores consagrados como Daniel Ballart, Ivan Moro, Gabi Hernandez, Silipo, Angellini. E quem entrou no lugar deles? Jogadores juniores? Não. Eles deram lugar a jogadores de 24, 25 anos. Entrou o Kiko Perrone, que está com 30 anos. O único mais jovem talvez tenha sido o Felipinho (Perrone) - aí estamos falando de exceção à regra, estamos citando um jogador fora de série.



Polo Ceará - O Kiko Perrone atribui em parte a você, ao seu amor ao WP, o gigantesco sucesso alcançado por ele como jogador. Como é sua relação com seus atletas e como você se sente tendo formado muitos dos melhores atletas brasileiros da atualidade?

Carlinhos - As palavras do Kiko são, para mim, uma das maiores recompensas do meu trabalho. Ele é como um filho, é assim que o considero. Qualquer elogio dele é suspeito.

Minha relação com meus atletas é simples, baseada em respeito, confiança mútua, disciplina e trabalho. Procuro fazer com que todas as categorias interajam, para que possamos constituir, na verdade, uma grande família - com todos os ônus e bônus.

Não escondo nada dos meus atletas, trato tudo com eles de frente, sobre qualquer assunto e aspecto. Eles sabem quando eu gosto e quando não gosto de algo, e conversamos a respeito. Além da parte esportiva, entendo que, nós técnicos, também representamos a extensão da educação que eles recebem em casa. Temos a obrigação de contribuir na formação moral deles.

Meus atletas são meus amigos, independente da categoria a qual pertençam.

Quanto a formar atletas, creio que é como ter um filho. Você vê nascer, acompanha o crescimento e sabe que, a qualquer momento, ele vai ‘criar asas’ e viver a própria vida. Que pode ser ao seu lado ou não. Sem que isso diminua o carinho e a alegria da participação no sucesso dele.

Uma constatação foi, agora no Troféu Brasil, ver Kiko, Beto (Seabra) e Paulinho (Lacativa) comemorando os 20 anos jogando juntos, dos quais 18 como meus atletas.


Pólo Ceará - Outro fato que lembro bem é que as escolinhas tinham sempre muita gente inscrita. Isso é, no mínimo, um indicativo de que muita gente se interessa pelo WP. Você já foi treinador em diferentes clubes. Como eles lidam com a modalidade: dão apoio ou apenas mantêm o WP em quinto plano como uma atividade não-lucrativa?

Carlinhos - Vou falar daqui, pelo Rio de Janeiro. Creio que todos os clubes,dentro das próprias limitações, apóiam o Pólo Aquático. Creio também que se tivessem condições apoiariam mais ainda. É difícil. Não temos uma estrutura sólida, divulgação, mídia. Concorremos com esportes que têm mais visibilidade. É necessário realizarmos mais eventos importantes no Brasil, isso atrai jovens e a procura pelo esporte aumenta.

Outro ponto muito importante é o fato de não termos ídolos. O Pólo Aquático precisa ter um ou mais atletas com quem o público se identifique - atletas que sejam referências não só para o público, mas também para a mídia.

Quem estava começando a ocupar este espaço era o Kiko, e os resultados estavam sendo bastante satisfatórios.

Pólo Ceará - Se fala muito numa espécie de pacto de mediocridade (já negado aqui em outras entrevistas), onde a CBDA finge que apóia o WP e os atletas fingem que treinam. Gostaria de saber de você, tantos anos como técnico da seleção, o que deve ser feito para que tenhamos uma equipe competitiva em nível internacional?

Carlinhos - Bem, não posso falar por ninguém, somente por mim. Primeiro, porque não conheço nenhum ‘pacto de mediocridade’, até porque acho que seria uma tremenda burrice um atleta ou técnico querer participar de um pacto que só traria prejuízo a eles e nenhuma vantagem.

Segundo, não se pode esquecer, que a CBDA e, conseqüentemente, a Seleção são a última parte da pirâmide. Temos que ver se os clubes fazem o possível para o Pólo Aquático crescer. Se não fazem, o que podemos fazer para melhorar? E as federações, fazem o seu papel? Se não fazem, o que podemos fazer para mudar? Atletas, técnicos, dirigentes e árbitros, o que podem fazer para melhorar o nível do nosso esporte. A Confederação e a Seleção têm que andar junto com todos esses segmentos. Não podem ser a solução dos problemas e nem se ausentar das discussões.

Para termos uma seleção competitiva, é preciso ter um Pólo Aquático competitivo. Como disse lá em cima, temos que formar melhor nossos atletas, temos que ter campeonatos de melhor nível técnico, e mais longos. Temos que ter técnicos atualizados com o que acontece pelo mundo. Nossos árbitros precisam de reciclagem e avaliações constantes. Precisamos de mais intercâmbio. De avaliações em conjunto.

Olhando de forma mais emergencial, necessitamos dar mais condições à Seleção Júnior, para que se prepare melhor. Entendo a importância que um Sul-americano tem para CBDA, mas acho que é um evento para o qual deveríamos enviar uma Seleção mesclada, de jogadores adultos, que normalmente não estão entre os 13 finais, e de jogadores juniores. Serviria para aumentar o campo de observação. Serviria para motivar atletas que, naquele momento, não estão no grupo dos 13 melhores da seleção - motivaria uma boa quantidade de atletas a continuar jogando.

Temos dificuldades em viajar constantemente, nosso esporte não é profissional. Dessa forma, temos que priorizar nosso treinamento no Brasil. Trazer seleções para treinar e jogar conosco. Realizar eventos oficiais e amistosos aqui, todos possíveis. Quando oficiais, convidar alguma das seleções participantes para chegar antes do prazo previsto, para treinar conosco.

É preciso planejar, oficializar convites com prazos hábeis para que sejam aceitos, investir com o orçamento que temos, tentando fazer o máximo. Aqui no Brasil temos muito a nosso favor, bom clima o ano inteiro, hospedagem e alimentação com custos acessíveis, ente outros fatores que, bem projetados, concorrem como pontos positivos.



Polo Ceará - São quase unânimes as reclamações em relação ao suposto desprezo da CBDA em relação ao WP. Algumas distorções são evidentes. Um campeonato de natação júnior tem verba para transmissão pelo Esporte Espetacular e um evento da grandeza do Troféu Brasil não tem sequer press-release (fax, email...) para, pelo menos, avisar à imprensa. Pelo tempo que você teve contato com a entidade, qual o peso do WP pra CBDA?

Carlinhos - Bem, temos aqui um assunto delicado, pois eu teria que julgar a intenção das pessoas e, com certeza, eu poderia cometer injustiças. Mas não me furtarei a dar uma opinião.

Não creio que a Confederação despreze o Pólo Aquático. Não posso entender uma entidade não querer que uma das suas modalidades melhore, avance, enfim, tenha destaque.

É claro que existem erros, ao meu ver, e gostaria de ter a possibilidade de participar de uma discussão aberta e franca sobre eles, sobre quais os melhores caminhos para melhorar a modalidade dentro da entidade. Falarei disto mais adiante.

Antes de tudo, falando da mídia dos eventos, da transmissão que você cita, da falta de um press-release do Troféu Brasil, tenho a dizer o seguinte; em relação aos releases, acredito que o próprio presidente da Confederação reconheceu que não aconteceu da forma mais adequada. Não é o suficiente, mas é um passo adiante, pois o reconhecimento de uma falha, proporciona correção para próximos acontecimentos.

Quanto à verba de transmissão para a natação, e não para outros esportes, até onde sei, não funciona dessa forma. Não envolve pagamento direto, envolvem opções de transmissão. E, nesse sentido, é óbvio que penso que deveria haver uma melhor distribuição na grade de transmissão, que contemplasse mais o nosso esporte. Não só com o televisionamento da final, mas de parte do evento, ou de todo. Transmitir ao vivo um jogo por rodada, ter horários mais adequados e, é claro, como já falei antes, um campeonato mais longo e bem planejado.

Agora, voltando à primeira parte, acho que a Confederação deveria fazer uma reformulação da estrutura do Pólo Aquático na entidade. Procurar se profissionalizar, dentro do possível, ao máximo. Descentralizar um pouco a modalidade.

Penso que deveriam ser criados departamentos que se ocupassem de funções específicas. Que planejassem, apresentassem e executassem projetos na área, por exemplo:

1 - Porque não criar um ‘Departamento de Seleções’? Contratar um profissional que ocupe o cargo de supervisão – com a função de organizar os treinos das Seleções, dar suporte administrativo e técnico, receber e manter contato com as seleções de outros países, entre outras.

2 – Porque não termos um ‘Departamento de Eventos e/ou de Campeonatos’? Contratar um profissional da área para cuidar de todos os campeonatos nacionais. Organização, estrutura, planejamento. Apresentação de relatório sobre o evento, entre outras coisas.

3 – Porque não ter um ‘Departamento de Arbitragem? Um departamento não só responsável pela escalação dos árbitros, mas que também tivesse condições de avaliá-los nos campeonatos, de promover cursos de atualização, visando sempre a qualidade e o aperfeiçoamento dos mesmos. Além de acompanhar e monitorar o treinamento, o interesse deles em progredir e evoluir. Existe a necessidade de aumentar o quadro de arbitragem no Brasil.

Pólo Ceará - Outra impressão que tinha quando era moleque na piscina do Fluminense, e que tenho hoje, olhando de fora, é que o Pólo Aquático brasileiro, embora mobilize ainda pouca gente, não é nada unido e, muitas vezes, movido por vaidades fúteis, intrigas e fofoquinhas. No comando da seleção isso te incomodou muito?

Carlinhos - Concordo plenamente com você. Nosso esporte é desunido, e me incluo e ‘visto a carapuça’, pois faço parte do Pólo Aquático. O que as pessoas não conseguem é diferenciar o interesse pessoal, do coletivo. Não conseguem sentar para debater, discutir Pólo Aquático pensando no esporte. E deixar a disputa para a borda da piscina. Sei que muitas pessoas, ao lerem isto, vão reagir, aí você poderá comprovar o que acabo de dizer.

Quanto a ter me incomodado durante a minha passagem pela Seleção, posso te dizer o seguinte; no início me incomodou muito, principalmente, por ver pessoas que não me conheciam, que não têm a menor intimidade comigo, falarem a meu respeito - não como técnico, mas como pessoa. Me chateava. Pessoas que, na minha frente, falavam algo e depois eu tomava conhecimento que, longe, falavam outra coisa.

Mas percebi que aquilo não poderia, nem deveria atrapalhar meu trabalho. Que aquilo não poderia me atingir. E tenho certeza que consegui. As pessoas passaram a falar, eu tomava conhecimento, mas, simplesmente, não respondia. Consegui, com ajuda da minha família e dos amigos, ver o lado bom disso.

E, como diz o escritor espanhol Baltasar Gracián: "É muito triste não ter amigos, mas mais triste mesmo é não ter inimigos. Porque quem não tem inimigo é sinal de que não tem nem talento a que se faça sombra, nem valores a preservar, nem honra que dê a que falar, nem bens que cobicem, nem coisas boas que invejem."

Acho que diz tudo!

Pólo Ceará - Por que você saiu da seleção e quais as suas expectativas para as nossas participações (feminino e masculino) no Pan?

Carlinhos - Primeiro, eu ou qualquer outro técnico que servir à Seleção, temos que entender que ninguém é técnico da Seleção, mas está técnico da Seleção.

Segundo, entrar e sair faz parte da vida de um técnico. Aquele que não entender isso, não pode ser técnico de Seleção ou liderar qualquer time.

Quanto à minha saída, aconteceu o seguinte: ao retornar da Liga Mundial, fui chamado pelo presidente da CBDA, Sr. Coaracy Nunes, para uma reunião na qual só estavam presentes eu e ele. Na oportunidade, ele teceu alguns comentários e elogios à minha pessoa, à minha conduta profissional e me disse que faria modificações no comando da Seleção Brasileira.

Eu respondi a ele que estava tudo certo, que era um direito dele e que não havia o menor problema. Ele pediu que eu não me afastasse da CBDA, porque gostaria de contar com a minha ajuda, sempre que possível. Eu concordei. Agradeci e a reunião terminou da mesma maneira que começou, de forma cordial e educada. Como deveria ser.

Fora isso, a Seleção agora está sob o comando do Bárbaro, um excelente profissional e figura humana. Desejo a ele e à Seleção Brasileira sorte e sucesso nas empreitadas que seguem.

Quanto à nossa participação, é difícil falar com tanta antecedência. Vai depender de muitos fatores, tais como; tempo para preparação, tempo disponível de cada um, do grupo, para treinos em conjunto; se serão feitos jogos e treinos preparatórios; de que estrutura a Seleção terá para trabalhar. Estas são algumas das questões que podem servir de base para avaliação para, então, se ter, de fato, expectativas em relação ao PAN.

Mas, ainda assim, tentando fazer uma projeção para o PAN, sabendo que ele é classificatório para as Olimpíadas de Pequim, conhecendo a estrutura de nossos adversários, e respectivos retrospectos em âmbito das Américas e Mundial, as potencialidades de cada um, posso dizer que; no Feminino, nossa realidade é uma medalha de bronze. Estados Unidos e Canadá estão à nossa frente, e temos muito pouco tempo para alterar isso.

No masculino, se fizermos uma boa preparação, com certeza, temos chances de disputar com os Estados Unidos a medalha de ouro. Agora, é importante ressaltar que, mesmo realizando uma boa preparação, não será fácil vencer Canadá e Cuba. Ou seja, temos condições de estar na final e, ao mesmo tempo, corremos o risco de disputarmos terceiro e quarto lugar. Isso nos leva ao início desta resposta: nossa preparação é que vai determinar a chance que teremos no PAN.

Pólo Ceará - Aqui pelo blog já recebi contato da maioria das cidades brasileiras com praticantes de Pólo Aquático. Nosso Circuito Nordeste/Centro-Oeste já contou, nas duas primeiras etapas, com a participação de 13 times masculinos e 6 femininos. Como é possível estimular o desenvolvimento desse processo que já existe de forma espontânea?

Carlinhos - Com a adesão e o comprometimento de todos os segmentos do Pólo Aquático. Clubes, Federações, Confederação todos devem trabalhar para ajudar no trabalho de desenvolvimento. Antes, tem que se elaborar um planejamento a médio e longo prazos, com metas e objetivos a serem alcançados, que deve ser bem gerenciado para garantir a realização e colhermos os frutos.

Pólo Ceará - Você de fato respira WP. Além de ter dedicado sua vida ao esporte, sua mulher e suas duas filhas treinam. Dá pra falar sobre a importância do Pólo Aquático na sua vida?

Carlinhos - É como o ar que respiro. Estou há 35 anos neste esporte. Ele me ensinou todos os valores que tenho de vida. Ele me fez conhecer minha esposa, minha companheira inseparável. Conseqüentemente, me proporcionou a construção de minha família, com a chegada das minhas filhas, razão maior da minha vida.

O WP me deu, e continua dando, amigos e amizades, que são o bem maior que o esporte nos proporciona. Tenho que agradecer, além da minha família, os meus companheiros de clube e Seleção, desde os meus tempos de atleta. Ainda, os meus atletas, aqueles que passaram e os que ainda estão comigo. Os companheiros de profissão, os dirigentes de todos os clubes onde trabalhei ao longo da minha vida, que sempre me apoiaram. Meus pais e irmãos e, em especial, ao meu grande mestre prof. Edson Perri, no qual sempre procurei me espelhar dentro do esporte.

Pólo Ceará - Temos alguns blogs no nordeste, um flog em Roraima, o site poloaquatico.com.br, o site de Floripa, alguns clubes mantêm sites, sua esposa está lançando um blog que terá entrevistas exclusivas com estrelas internacionais, o André Avalonne está criando um direto de Barcelona onde pretende colocar vídeos e dicas de treinos, vários atletas e treinadores se oferecem sempre pra ajudar no que for necessário, enfim, você acha que essas distâncias Brasil-exterior e outros estados-Rio/Sp podem ser diminuídas utilizando a internet como ferramenta?

Carlinhos - Sem dúvida que sim. Hoje a internet nos proporciona contato imediato com tudo o que acontece no mundo. São documentos e trabalhos sobre Pólo Aquático à disposição - vídeos, fotos, transmissões on line, enfim temos tudo ao nosso alcance, além da comunicação instantânea.

Gostaria, inclusive, de dar e deixar registrada aqui uma sugestão para a CBDA, que já poderia ter sido usada no Troféu Brasil, inclusive por que o mesmo foi realizado no Maracanã, onde fica a sede da entidade: a transmissão on line dos jogos de Pólo Aquático, de todos os eventos nacionais, através do site da instituição. Isso, como eu disse, já poderia ter sido feito neste Troféu Brasil. Agora, há uma chance boa de estrear o link; durante a Eliminatória do Mundial, que será realizada no Rio de Janeiro, também na piscina do Maracanã.

Desta forma, o Brasil inteiro poderia assistir. Técnicos poderiam gravar os jogos. Enfim, seria uma grande ajuda no desenvolvimento do esporte.

Depois do evento, a idéia é deixar as gravações disponibilizadas no site, para quem não tiver a possibilidade de assistir ao vivo. Recentemente, a FINA fez isso nas finais da Liga Mundial.

Pólo Ceará - Espaço livre caso queira comentar algo ou deixar uma mensagem pra todos que gostam do esporte.

Carlinhos - Antes de qualquer coisa, quero lhe agradecer por esta oportunidade. Depois parabeniza-lo pelo seu esforço em divulgar e difundir nosso esporte. E, por fim, dizer à nossa comunidade que precisamos discutir, debater, conversar, apresentar propostas, enfim trabalhar em prol do Pólo Aquático - pelos clubes e pelo todo, principalmente. Se não avançarmos, todos perdemos. Se houver desenvolvimento, será bom para todo mundo.

Sei que nem todos pensam igual a mim, mas isso pouco importa, há que se respeitar as diferenças, no fim elas se somam. O que importa mesmo é o que podemos fazer para melhorar o Pólo Aquático no Brasil, darmos as mãos e irmos a luta.

Um forte abraço a todos!

5 Comments:

Anonymous Sérgio Moraes said...

Muito legal a entrevista Helcio. Parebens pra vc e pro Carlinhos. Com boas idéias e disposição se pode melhorar muita coisa, mesmo em um país em que o esporte não tem a importância que deveria ter e com isso proporciona espaço para péssimos dirigentes que preferem o caos ao invés da organização. É isso aí Helcio, queromos ver mais entrevistas, sei que dá trabalho mas vale apena.

abs

11 outubro, 2006  
Anonymous Alexandre de Paula (CE) said...

A sugestão foi lançada (transmissão on-line de jogos), agora é arregassar as mangas e fazer !!!!!
Parabéns pela entrevista, Hélcio. Sucesso Carlinhos, estamos esperando uma visita sua aqui em Fortaleza, seria uma ótima ajuda para o Pólo Cearense, ficamos no aguardo.
Abraço a todos

12 outubro, 2006  
Anonymous Anônimo said...

Emir (RJ) disse...
Parabéns pela entrevista. Só gostaria de saber quando os interessados pelo desenvolvimento do pólo aquático terão a coragem de começar a tentar mudar os rumos desse esporte. Segue mais uma vez a minha sugestão: Por que os interessados, aí eu incluo o entrevistado, não preparam um encontro entre técnicos, atletas e dirigentes e os que gostam do esporte para discutir os temas calendário, arbitragem, seleção, e outros. O pré-mundial está chegando, seria uma boa oportunidade pois, provavelmente, estarão todos no RJ para o evento. Um dia antes ou dois far-se-ia o encontro e dele poderíam ser tomadas as primeiras decisões para tentarmos salvar o esporte.

13 outubro, 2006  
Anonymous Dirceu Reis said...

Gostaria de deixar registrada a minha satisfação com a entrevista. Parabéns ao Hélcio e ao Carlinhos pela brilhante entrevista!

13 outubro, 2006  
Anonymous felipe said...

vem cá... eu acabei d ler isso na coluna da Letícia: "Não quero aqui atiçar esse fogo, que já está mais do que forte com a solicitação da retirada da íntegra da entrevista do site..." http://www.poloaquatico.com.br/colunas/coluna.asp?aut=3&col=211

vem cá novamente... é verdade q foi pedida q retirada da entrevista no site?

Foi o general Costa e Silva ou General Médici q mandou tirar?

po, eu to escrevendo a partir da minha primeira impressão, oq aumenta o risco d eu vir a falar besteira... mas se vem um sujeito e fala algo genioso, e/ou outro q vem e fala uma grande cagada... e ambos cutucam aluguém, ou algo (como uma organização)... nada tira o direito deles expressarem suas opiniões...é por isso q quem foi cutucado, tem tb o direito d responder às criticas... sejamos todos bem-vindos ao séc.XXI!!!

espero q minha leitura sobre o q a Letícia falou esteja errônea, q eu tenha entendido errado... senão seria triste saber q até no nosso querido polo, existem generais...

registro aqui tb meu agradecimento aos responsáveis pela discussão: Hélcio, Letícia e Carlos. (se esqueci alguém, me desculpe)

bom, pra quem fala pouco, já falei demais...e quando falo demais, falo besteira...então vou parar por aqui!
abraço a todos,
Felipe

23 outubro, 2006  

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