Carnaval

Na foto estão Michael, Rony, Wagner, Paulo César, Adriano Abreu (no alto), Rafael (abaixado), Fernando e Felipe.
Bom carnaval a todos e não deixe de ler a entrevista do Ricardo Perrone logo abaixo.
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Pólo Ceará – Há quantos anos você joga Pólo Aquático? Por tudo que você já viu, há mais motivos para desanimar ou para acreditar em dias melhores?
Perrone – Comecei em 1964, no Guanabara. São 42 anos, portanto. Sou otimista, por convicção. Hoje temos muito mais condições de infra-estrutura e recursos tecnológicos para melhorar do que há 40, 30, 20 ou 10 anos. Até pouco tempo atrás, tudo o que se sabia do esporte no resto do mundo era através de comunicação boca a boca quando alguém viajava para uma Olimpíada ou Mundial.
Hoje, além de jogos na TV e site especializados com comentários, fotos e vídeos, você pode conversar e trocar idéias com técnicos de todo o mundo sem qualquer custo. Vocês aí no Ceará podem, por exemplo, filmar um treino de homem a mais, pedir a um técnico no Rio para analisar e dar sugestões e ter a resposta no mesmo dia, para corrigir no treino do dia seguinte. Imagina o que o Amaral teria de ter feito para conseguir algo assim há vinte anos atrás. Agora, o que está faltando mesmo, como diversas pessoas já disseram (o último foi o Pedro Lima, no site http://www.poloaquatico.com.br/), é um planejamento de longo prazo para direcionar os esforços. É como se tivéssemos um carro atolado e um monte de gente para empurrar. Só que cada um empurra em um momento e direção diferentes. E depois fica reclamando e dizendo que fez a sua parte.
Isso vale não só para o pólo como para o esporte em geral. Na última eleição presidencial, me dei ao trabalho de olhar diversos programas de partidos e nenhum deles tinha uma política esportiva. Até hoje, por incrível que pareça, nossos políticos ainda não entenderam que os países desenvolvidos não incentivam o esporte para ganhar medalhas no próximo Pan ou na próxima Olimpíada, e sim para ter uma população mais saudável, mais disciplinada e com melhor qualidade de vida.
Pólo Ceará – Uma pergunta que faço a todo mundo e não iria deixar de fazer logo a você. Quem foram os melhores que você já viu e jogou contra ou a favor?
Perrone – Da época em que eu viajava para jogar (década de 70) o melhor, sem dúvida, foi o De Magistris, da Itália. Treinamos em Roma contra ele e o cara brincava com a gente. Depois, vi na Universíada 77 ele fazer jogadas fantásticas e empatar praticamente sozinho com o poderoso time campeão olímpico da Hungria com Farago, Horkai, Szivos e outros. Agora, nesses últimos 5 anos em que voltei a ver jogos internacionais, há diversos cracaços, como Vusajinovic, Ikodinovic, Sapic, Kiss e Kasas, mas não acho que haja nenhum jogador que realmente desequilibre as partidas consistentemente.
Pólo Ceará – Kiko e Felipe tiveram que sair do Brasil para terem seus talentos aproveitados. Quando você percebeu que seus filhos chegariam a tão alto nível?
Perrone – Bom, com o Kiko foi mais difícil, porque ele estava abrindo caminho, mas já na primeira temporada na Espanha, em que ele foi campeão da Liga e da Copa do Rei e artilheiro da Liga e da Copa LEN, deu para ver que embora ele ainda tivesse muito para aprender, em muitos fundamentos ele já era igual ou superior aos jogadores da seleção espanhola, que tínhamos como ídolos. Depois veio a decepção do Mundial, quando foi absurdamente cortado e vimos que ainda seria necessário quebrar muitas barreiras e preconceitos.
Já para o Felipe, sempre ficou claro que ele estava em um nível muito superior ao dos jogadores de sua idade e o fato de desde os 15 anos estar na seleção adulta do Brasil e de ir passar as férias jogando no Barcelona contra os melhores times do mundo lhe deu uma estrutura muito sólida para poder chegar agora a ser um dos jogadores base da seleção espanhola.
Pólo Ceará – Ser campeão jogando com os dois filhos é uma sensação que pouca gente no mundo vai sentir. Você podia contar como foi?
Perrone – Não só no esporte, como na vida em geral, qualquer conquista em que você tenha se esforçado junto seus filhos por longo tempo para atingir um objetivo é sempre um prazer enorme. Em vários desses campeonatos, como pelo Botafogo em 95 ou pelo Guanabara/Vasco em 2000, eu estava meio “na aba”, pois os times eram fortíssimos e eu só entrava quando estávamos em vantagem, e era preciso diminuir o ritmo e segurar o resultado. Por isso, os campeonatos que lembro como mais gratificantes foram os de 1994, quando quebramos uma série de 10 anos de campeonatos do Flamengo com um time de garotos (Kiko, Beto, Lacativa) e o de 2002, quando o Felipe estava na Espanha e só chegou para jogar a semi-final e final. Nesses campeonatos tive uma participação bem mais importante.
Na realidade, nesse tipo de vitória, o processo, isto é, o treinamento durante o ano, as discussões para corrigir erros e o vínculo que vai se formando dentro da equipe com a melhoria do desempenho, é bem mais importante que o produto final que é ser campeão. Nada diferente de, por exemplo, um vestibular ou uma graduação, em que você estuda junto com seu filho, ajuda a tirar dúvidas nas matérias e depois vê o sucesso nas provas como uma conquista de toda a família. Quer dizer, mesmo que eventualmente não consigamos atingir o objetivo final, só o fato de termos tentado juntos já nos faz campeões.
Pólo Ceará – Daqui de longe a impressão que passa é que há um ciclo difícil de sair. Uns dizem que os atletas não treinam em seus clubes. Outros alegam que falta apoio. Qual é a real do Pólo Aquático brasileiro?
Perrone – Essa pergunta já foi parcialmente respondida mais acima. Existem muitos problemas pontuais, que podem ser resolvidos pela própria vontade do atleta ou no âmbito do clube e de federações/confederação, mas, como falei, para romper com os padrões atuais do esporte brasileiro (e não apenas do pólo) é preciso uma mudança cultural, que pode ser exigida e incentivada de baixo, por técnicos, dirigentes de clube e atletas do pólo, mas que só pode ser implantada através de uma ação coordenada dos dirigentes nacionais, ou seja, governos federal, estadual e municipal e dirigentes esportivos de alto nível (COB e confederações)
Pólo Ceará - O tamanho do Brasil é apontado como um problema. Será que criar circuitos regionais pode ser uma alternativa?
Perrone – Claro que sim, mas o que vejo como mais importante é o uso das novas tecnologias que permitem encurtar as distâncias. Não há mais porque os estados fora do eixo Rio-São Paulo ficarem isolados como antes. Por exemplo, o Encontro de Técnicos de Pólo que é realizado anualmente no Rio poderia ter facilmente a participação por tele-conferência de técnicos de todos os estados, com um custo desprezível. A transmissão de jogos também pode passar a ser feita pela Internet sem grandes investimentos. Enfim, em vez de nos queixarmos das distâncias, o negócio é buscar soluções inovadoras.
Pólo Ceará - Existe alguma experiência de sucesso lá de fora que possa ser aplicada aqui dentro na nossa realidade?
Perrone – Inúmeras. Algumas tão óbvias que não dá para acreditar que ninguém se mexa para aplicá-las. Um exemplo: Na Espanha há uma escola secundária só para atletas (Blume). Nela os atletas moram (se forem de outras cidades), estudam, têm alimentação especial, calendário e horários adequados aos seus esportes/clubes. Dá para imaginar o benefício que um esquema desses traria em um país como o nosso? A possibilidade de faturamento político para qualquer partido que implementasse algo assim parece muito atraente, mas o que se vê são ações no varejo, como as tão faladas bolsa-atleta, muito mais difíceis de fiscalizar e muito mais suscetíveis a desvios de finalidade.
Pólo Ceará - Mesmo com todas as dificuldades você nunca desistiu do Pólo Aquático e, pelo contrário, se tornou um dos maiores conhecedores do assunto. O que o Pólo Aquático significa na sua vida?
Perrone- Uma das coisas que sempre me perguntam é porque não parei. Minha resposta é que além de adorar jogar, eu detesto academia, musculação e corrida. Então, para manter a saúde, ao invés de pagar para fazer algo que não gosto, prefiro me juntar à garotada (ou velharada, no caso do máster) e jogar uma pelada. Aliás, para quem diz que sai muito cansado do trabalho e não consegue treinar, o que posso garantir é que nas pouquíssimas vezes que tive de interromper a prática de esporte foi exatamente a época em que ficava mais cansado, sem apetite e dormindo mal. Também em época de crise no trabalho, doença na família ou outros traumas, o esporte sempre foi minha tábua de salvação para agüentar o tranco. Uma boa nadada e uma horinha de um bom coletivo substituem qualquer Prozac ou analista da vida. E é mais barato também.
Nas fotos, de cima para baixo, a família Perrone reunida, Ricardo Perrone de backside no "PipeLeme", Ricardo e Felipe em 2002 e direita na Prainha.
O Solon era um atacante perigosíssimo. Difícil para alguém que não acompanhasse o esporte de perto acreditar que aquele cara pudesse ser tão rápido. Vai ser difícil também entender o quanto o cara é divertido apenas por uma entrevista rápida. Eu era um dos moleques que gostava de aproveitar a chance de vê-lo na beira da piscina contando as suas histórias. Para quem não teve essa chance, fica aqui um pouco do que é o Solon dos Santos, e uma mensagem final fantástica que resume tudo e lembra a deixada pelo Duda. Não foi à toa que os caras foram sempre artilheiros.
Pólo Ceará - Você nunca foi de "jogar confetes" e isso sempre fez de você um jogador polêmico dentro e fora da água. Mesmo assim essa confusão que fizeram contigo da prancheta, vista daqui de longe, pareceu patética. O que houve de fato?
Solon - Foi na semifinal do estadual de infanto-juvenil no jogo contra o Fluminense, o Silvio não pôde dirigir o time, e foi substituído pelo Carlinhos. O Carlinhos utilizou a prancheta no jogo e o Flamengo ganhou de 14x3.
O repórter do site poloaquatico.com.br , quando acabou o jogo, veio me perguntar porque eu não estava utilizando a minha prancheta. Eu respondi que estava na mala do meu carro e que não costumo utilizar em meus jogos na beira da piscina, não esquecendo que eu dirijo categorias de base, e na minha opinião os atletas que estão iniciando o pólo aquático ainda não conseguem se concentrar na beira piscina em uma prancheta.
Mas isso eu tenho certeza foi uma maneira de polemizar a direção do Carlinhos, por ele ser o técnico da seleção, sempre será cobrado em resultados. Não se esquecendo que ele estava substituindo o Silvio numa emergência, jogando contra o time do Flamengo de Infanto-juvenil, que está invicto há mais de 50 jogos é bicampeão estadual, bicampeão brasileiro e tricampeão da copa do Brasil, que outros técnicos com prancheta ou sem prancheta, tentaram tirar a hegemonia do Flamengo e não conseguiram.
Pólo Ceará - Lembro de você na beira da piscina dizendo que havia quem falasse mal de você, mas todo ano você era artilheiro e, quando não era você, era o Duda. A característica que mais recordo do seu jogo era a explosão pra entrar na área e o chute rápido pro gol. Como você definiria seu estilo de jogo?
Solon - Quem definiu melhor o meu maior potencial foi meu treinador Edson Perri (Barriga). Ele dizia que eu tinha força proporcional ao meu peso, com uma explosão nata, e que poucos atletas nascem com essa qualidade.
Me aproveitando dessas qualidades que Deus me deu, e muito treinamento nos fundamentos e horas treinado chutes a gol. Me tornei artilheiro em todos os clubes e seleções em que joguei, lembrando que na minha trajetória de goleador, sempre travei verdadeiros duelos, com atletas como Duda, Ayrton, Eric Borges e tantos outros que por qualquer descuido me tiravam a condição de artilheiro dos campeonatos. Tenho sempre agradecer aos companheiros, de times ou seleções, que me ajudaram a ser o goleador de tantos gols.
Pólo Ceará - Você marcou uma época e dificilmente alguém tem mais histórias dentro do Pólo Aquático do que você. Você pode contar alguma? Fica a sugestão de uma que rolou no ônibus dos japoneses nas Olimpíadas de 1984.
Solon - Essa passagem foi hilária, não foi nos jogos olímpicos e sim no pré-olímpico em Roma (Itália). Fomos jogar com o Japão bem cedo e fazia muito frio, com a piscina do estádio olímpico de Roma, era aberta , saia muita fumaça e quando nós chegamos os japoneses estavam treinando. Antes de jogar, davam muitos tiros de natação e gritam como samurais, aquilo nos deixou curiosos e apreensivos, mas nada que mudasse o nosso objetivo de nos classificarmos para a olimpíada de Los Angeles 1984.
O jogo foi realizado e o Brasil ganhou, quando estávamos apanhando o nosso ônibus, reparamos que os Japoneses estava chorando no ônibus do lado. Eu e o Marco Vinicius demos um berro para os japoneses, quando eles olharam, nós ficamos imitando eles. Olha, os caras ficaram uma arara.
Tem um ditado que diz: “quem ri por último, ri melhor.”
Pólo Ceará - A criação das categorias Master foi muito legal para manter o pessoal com a possibilidade de se divertir mesmo sem poder treinar com a mesma regularidade. Você está jogando?
Solon - Infelizmente não posso mais jogar enquanto eu não fizer uma cirurgia no fêmur, foram seqüelas de um acidente que sofri de moto em 88. Tenho que agradecer todos os dias, a Deus, por me deixar andando.
Vamos deixar de lado esses momentos ruins e falarmos da categoria de master, mesmo com os problemas de saúde que tive, tenho participado como técnico dos master do Rio de Janeiro e talvez tenha sido os momentos mais agradáveis, que passei ano passado na competição que teve em SP, ter o privilégio de conviver com meus grandes amigos do esporte como Ritão, Ricardinho, Perrone, Luizinho, Duda, Clovis, Valter, Robert, Maynard, Barrigão, Eduardo, Jacaré, Renê, Canetti, Vargas, Tonietto, Luis Paulo, Manteiga ,Gugu, Pavetitts, Raoul, os Fialdininis, George e Álvaro Sanches e tantos outros. Juntos recordarmos dos anos gloriosos e momentos inesquecíveis. Só tenho que agradecer ao Ritão, meu amigo de longa data que me fez esse convite, que aceitei de imediato.
Pólo Ceará - Qual a sua melhor lembrança do período como jogador?
Solon - A maior foi os jogos olímpicos de Los Angeles (USA) 1984, mas tenho grandes lembranças como os 4 JEBS que ganhei junto com o Paulinho Licastro de técnico, e hoje trabalhamos no Flamengo. Recordando vários títulos que ganhamos juntos e tentando mesclar nossa experiência para passar o máximo de informações aos nossos atletas que hoje formam essa nova geração.
Pólo Ceará - Vamos voltar à sua condição atual de treinador. O que mudou na preparação dos atletas com as novas regras?
Solon - Essa temporada de 2006 vai ser muito desgastante, pois vai ser o primeiro ano que começamos a preparar nossas equipes do Flamengo para as mudanças de regra. O volume de natação vai ter que ser mais intenso e com trabalhos específicos de chutes de primeira, para poder acompanhar o jogo dinâmico que estão jogando atualmente.
Pólo Ceará - Sua personalidade irreverente deve ter feito muita gente duvidar que você pudesse ser um bom técnico. Queira ou não você é obrigado a ser um disciplinador. Como é o seu relacionamento com os atletas?
Solon - Sempre fui irreverente, mas respeitando os limites que eram impostos, por isso fiz parte da Seleção Nacional por muitos anos. Quanto a eu ser bom técnico, acho que os números dizem tudo, minha passagem por todos os clubes que passei. Eu formei vários atletas e conquistei títulos e pude ser reconhecido por aqueles, que vivem sempre tentando arrumar uma desculpa ao sucesso dos vencedores, mas quando me torno campeão, procuro lembrar que as minhas vitórias são frutos de um trabalho dos atletas, dos pais e da comissão técnica que trabalhou em conjunto, quando não se parte desse princípio, dificilmente o resultado é positivo.
Solon - O Brasil é um celeiro de atletas com dom nato, é só dar uma condição que os resultados aparecem. Falo sempre que gerações passam todos os dias e que nada se faz para mudar o esporte nacional.
Os jogos pan-americanos já estão aí, ano que vem, e os cartolas ainda estão discutindo quem é que vai pagar as obras dos pólos esportivos. Não estou vendo nenhum trabalho de seleções permanentes dos esportes que precisam de apoio, a não ser o voleibol, a ginástica e outros esportes que já figuram como os melhores do mundo.
Pólo Ceará - Como você avalia a seleção que está se preparando para o Pan?
Solon - Acho que o trabalho da seleção do Pan ainda não começou, é só ver que ainda estamos sempre discutindo quem merece ser convocado ou não, mostra que temos que percorrer com muito trabalho e união geral uma maneira de formamos a melhor seleção possível . Torcendo sempre para que nosso esporte seja um dos expoentes dessa festa maravilhosa que vai ser os jogos pan-americanos.
Pólo Ceará - Brasileiro é doido por gol. Por que o Pólo Aquático não volta a ser popular como já foi?
Solon - São fatores para discutirmos durante horas, só que sempre que pessoas ligadas ao esporte se reúnem, coisa muito boas são ditas e pensadas. Só que esbarramos com um fator de suma importância, que é como vamos viabilizar qualquer projeto sem um parceiro que possa nos dar respaldo para se realizar uma massificação geral do pólo Nacional.
Até hoje no pólo aquático não apareceu um Almeida Braga, que pegou o voleibol e deu total estrutura para se massificar.
Pólo Ceará - Há um grupo empenhado em organizar eventos no nordeste para difundir o Pólo Aquático por aqui. Esperamos numa dessas edições ter o privilégio da sua presença.
Solon - Será um honra eu poder fazer parte. Eu como jogador já participei de eventos como JEBS e campeonatos regionais com o Botafogo em 1989 em Recife e 1990 em Aracaju. Sei muito bem que o nível técnico não era um dos melhores, mas por empolgação, talvez tenha sido os maiores campeonatos que eu já atuei.
Só quem ama o nosso esporte e faz dele um prazer de viver, entenderá que não existe coisa mais gostosa do que fazer um golzinho e vibrar como se fosse no maior campeonato do mundo, só que foi naquele racha que só os aquapolistas conhecem.
Na foto logo acima Solon sendo atirado na água na comemoração de mais um título. Na primeira foto da entrevista Solon de camisa preta ao lado do treinador Paulo Licastro.
Pólo Ceará - Logo antes de começar a jogar me chamavam a atenção as notícias de jornal sobre as finais entre Botafogo e Gama Filho, no comecinho dos anos 80. Estou há 10 anos fora do Rio, mas até vir pra Fortaleza não lembro do Pólo Aquático ter tido tanta atenção da mídia especializada como nessas finais. Como eram aqueles jogos?
Duda - Na verdade acho que o pólo aquático tem estado mais na mídia que no meu tempo, pois tenho assistido ao vivo pela Sportv finais de campeonatos brasileiros e jogos da liga mundial. Nos jornais continuamos a ver algumas reportagens quando tem algum jogo internacional ou finais de campeonatos brasileiros, mas a nível de divulgação dos clubes realmente piorou.
Gama Filho e Botafogo eram dois timaços que formavam a base da seleção na época, dirigidos por dois grandes técnicos (Paulinho e Barriga). Existia muita rivalidade, mas também muito respeito entre os dois times e os jogos eram sempre com placares apertados e muita emoção até o final. A única partida que terminou em confusão foi numa final que aconteceu no Julio Delamare. Após um jogo dramático vencido por nós com um gol faltando 4 segundos, houve um desentendimento de um de nossos jogadores (Marcos
Vinicius) com o árbitro (Cabral) que chegou as vias de fato. Entre os jogadores não rolava esse clima, até porque treinávamos juntos na seleção uma boa parte do ano.
Pólo Ceará - Como é que você começou a jogar?
Duda - Eu fazia natação no Canto do Rio, em Niterói, quando o Paulinho, hoje consagrado técnico do Flamengo, começou sua carreira de técnico no Clube. Eu estava de saco cheio de contar ladrilhos e sempre que acabavam os treinos de natação, eu ficava assistindo o treino do pólo e ficou fácil concluir que aquele esporte era muito mais interessante.
Pólo Ceará - Você desenvolveu um estilo muito próprio de jogar e era quase "imarcável" no centro. Devo ter comemorado centenas de gols seus nas arquibancadas quando era moleque. Você se baseou em alguém? Como você definiria seu modo de jogar?
Duda - Quando comecei a jogar eu era muito franzino e fui passando por todas as posições antes de ir parar no centro. Comecei a jogar no adulto com 15 anos e precisei me desenvolver muito tecnicamente em todas as posições para compensar o fato de ser leve. Paralelamente eu era fominha de treino, chegava 1 hora antes e só saía da água quando o vigia do clube apagava os refletores. Ficava “inventando” passes, chutes e jogadas com os amigos depois dos treinos e alguns desses fundamentos acabaram sendo úteis em
algumas situações de jogo pois surpreendiam os adversários.
Os grandes centros internacionais na minha época eram caras enormes, muito fortes, que
jogavam exclusivamente na base da força. Como não era esse o meu caso, tive que dar meu jeito e acabei criando um estilo próprio.
Pólo Ceará - Como foi a experiência das Olimpíadas de Los Angeles e como você analisa o time e a campanha?
Duda - Participar de uma Olimpíada é a realização de qualquer um que já tenha praticado um esporte. Nosso time fazia parte do “terceiro grupo” no ranking mundial como, aliás, permanece até hoje, portanto fizemos um bom papel dentro das nossas limitações contra todas as grandes equipes, à exceção do último jogo contra o Japão que poderíamos ter ganho e, por nossas falhas acabamos perdendo. O time era na realidade um grupo de 13 jogadores (Ayrton e Vinicius foram cortados por divergências com os dirigentes e na época só jogavam 11) que eram realmente os melhores do Brasil.
Pólo Ceará - Existe algum jogo que te traga uma lembrança especial na sua carreira?
Duda - O jogo contra o Canadá na conquista da medalha de bronze no pan de 87 em
Indianápolis marcou bastante pela raça com que o time jogou. O último quarto foram os 5 minutos mais longos da minha vida.
Pólo Ceará - Pelos anos de vivência no Pólo Aquático, você considera que o Pólo Aquático brasileiro está evoluindo ou está estagnado?
Duda - A nível mundial acho não mudou muita coisa. Continuamos no “terceiro grupo” no adulto e no junior acho que demos até uma piorada em relação à geração do Chaia e do Luis Guilherme. A nível nacional acho que tem mais gente jogando, o que é excelente, mas é inegável que as dimensões continentais do nosso país dificultam o intercâmbio, que é fundamental para o desenvolvimento do esporte como um todo.
Pólo Ceará - Quem foram os melhores jogadores com quem você jogou, a favor e contra?
Duda - Como tive uma carreira longa como atleta, joguei com várias gerações de excelentes jogadores. Destaco alguns como Álvaro Sanches, Ricardinho, Ayrton, Vinicius, Sólon, Carlinhos, Eric Borges, Pará, Beto, Kiko Perrone e Daniel Mameri. Dos gringos destaco o italiano De Magistri, o espanhol Manoel Estiarte, o alemão Frank Oto, os americanos Schroeder e o goleiro Wilson.
Pólo Ceará - Como foi a experiência como treinador?
Duda - Ser técnico durante 20 anos foi uma experiência fantástica. Pude aprender e crescer com várias gerações, ensinando o que eu mais sabia fazer. Como sempre dirigi equipes de base até o junior, pude me dar ao luxo de não ter como único objetivo a performance, tratando cada atleta de uma forma individualizada visando sua formação como um todo, e não como uma peça de um jogo. Se nem todos foram campeões no esporte, são hoje grandes homens e, principalmente grandes amigos, e tenho por eles o mesmo carinho de quando eram moleques. Isso para mim foi a grande conquista como técnico. Os troféus
e medalhas estão guardados cheios de poeira.
Pólo Ceará - Você está desligado do Pólo Aquático há três anos, mas de vez em quando ainda bate uma bola com os masters. O "verme" do Pólo Aquático jamais tem cura? Como são esses encontros?
Duda - Viver 30 anos totalmente envolvido com um esporte e dizer que não sente
falta parece mentira, mas vi tanta sacanagem nesse tempo de atleta/técnico que confesso que perdi um pouco o encanto do esporte como performance. Tenho a consciência tranqüila por ter feito o que estava ao meu alcance para tentar melhorar o esporte. Criei a Divisão Especial com o apoio da FARJ num projeto que durou 3 anos e continua hoje com enorme sucesso promovido e muito bem organizado pelo site, com etapa em vários Estados, mas hoje em dia só acompanho pela internet para saber como estão os amigos e vejo (quando
passa) alguns jogos na tv.
Pólo aquático pra mim hoje é só fazer aquele coletivão bem descontraído com os velhos, dar um montão de risadas, ver aqueles respeitáveis senhores empresários, médicos e engenheiros se comportando como adolescentes e tomar um monte de cervejas depois. Concluindo, na minha opinião o melhor do pólo aquático são a saúde e os
amigos.
A foto foi "montada" na piscina do América logo após as Olímpíadas de 1984. O jogador que simula a marcação é outro ícone da geração olímpica: Silvio Manfredi. E falando em grandes craques, no domingo que vem tem ninguém menos do que o ex-cracaço e vitorioso Solon dos Santos.
Pólo Ceará - Nos anos 60 o Pólo Aquático só perdia em audiência no Rio para o futebol e basquete. Os jogos tinham tanta gente que até os ingressos eram cobrados. Como era o clima nos campeonatos aqui em Fortaleza na sua época?
Amaral - O Pólo Aquático tomou grande impulso graças a uma grande pessoa chamada João Havelange, pois ele era um ex-jogador e muito fez por este esporte, inclusive dando passagens para a equipe do Brasil disputar uma olimpíada.
As competições eram bastante assistidas, pois o Polo era considerado um esporte dos superatletas. Antes não existia essa febre do ironman. Os jogos na AABB e no Náutico eram bastante concorridos.
Pólo Ceará - No nosso time atual do Náutico há o Dirceu e eu que treinamos nos anos 80 no Fluminense com o Jorge Herculano (Jorgete) e Claudino, já treinador consagrado no seu tempo. Você numa conversa por telefone contou que conheceu o Jorgete. Você poderia falar um pouco sobre esses nomes e sobre outros destaques da época?
Amaral - Meu contato com a turma do Rio e SP era muito pouca, excetos os que foram para a Europa. Conheci o Jorgete no Fluminense e nos JEB´s, ele sempre foi um ícone, incentivador do esporte. A turma respeitava muito o Jorgete no apito. Não “alisava”.
A viagem à Hungria foi com um grupo formado com os melhores dos JEB´s de 1974. Levaram também todos os técnicos dos estados que participaram dos Jogos. O Técnico do Ceará foi impedido de viajar por ser militar, pois o "estágio" foi na Hungria que era um país socialista controlado pela Rússia. Os destaques do time eram Beiçola, Paulo, Michel, Caco, entre outros...
Pólo Ceará - Ouvi dizer que quando chegou na Europa para jogar contra os húngaros você ficou impressionado com a força dos chutes. Como foi essa passagem?
Amaral - Quando cheguei na Hungria fui direto para a piscina. A equipe do Brasil estava com 3 goleiros. Eu (Ceará), Michel (Guanabara/Rio) e o Coutrim (SP). A primeira bola que fui defender furou o bloqueio das minhas mãos e bateu no meu rosto. Aí foi que aprendi a importância dos dedos cruzados ao receber uma bola chutada. A Hungria, quando estive lá treinando por um mês, era considerada a melhor equipe do mundo. Os americanos passaram bom tempo treinando também com eles. Inclusive levaram para EUA toda delegação principal de polo da Hungria para uma temporada.
Pólo Ceará - As regras acabaram de mudar para tornar o jogo ainda mais dinâmico. Como você compararia o jogo nos seus tempos para os últimos que você viu?
Amaral - Primeiramente, preciso me atualizar, mas com essas mudanças, as equipes passaram a trabalhar com mais velocidade e o gol ficou mais fácil. O princípio básico tático do Polo Aquático se assemelha ao basquete e até mesmo ao futebol. A bola gira por fora da área e se aproveita uma falha para se infiltrar a bola para um pivô (centro-avante).
Pólo Ceará – Desejamos sucesso na sua empresa (http://www.caprius.com.br/) de eventos de “Outdoor Training” e especificamente agora com os empresários na vivência na caatinga, de 16 a 19 de março. Isso não significa que não continuemos aguardando a sua visita na piscina...
Amaral - Hélcio, gostaria de encerrar nossa entrevista desejando um forte abraço a vc e toda a turma. Saiba que o seu sonho não pode ficar sem ação. Como disse Amir Klink: “Há tempo para planejar e há tempo para partir”. Você já soltou as amarras do seu barco, siga em frente, pois estarei ao teu lado para segurar o remo e dar um sentido as coisas sonhadas com amor.
Um forte abraço do amigo e incentivador de sempre, Walter Amaral.
As duas fotos são das vivências promovidas pela Caprius, empresa de ecoturismo do coronel Amaral.